Prática musical pode melhorar atenção e maturidade social de crianças

Tocar um instrumento impacta o nosso cérebro de forma diferente de apenas ouvir música. E pesquisas estão mostrando que esses impactos podem se transformar em uma influência duradoura e positiva sobre o comportamento de jovens. É o que mostra o trabalho da musicista, pesquisadora e docente do Instituto de Artes da Unesp Graziela Bortz.

Foto: Fabio Mazzitelli/ACI Unesp

Muitos estudos já demonstraram que a prática de um instrumento está associada a um aumento dos níveis de dopamina no cérebro. Esse é o neurotransmissor que atua na regulação do prazer, da motivação, do movimento e do sistema de recompensa, promovendo um estado de relaxamento após a prática.

Em 2017, Bortz observou um aumento dos cortes orçamentários no setor artístico, o que dificultava o acesso da população à música e, consequentemente, aos seus benefícios. Aquele cenário motivou a docente para um estudo que demonstrasse a importância da prática musical, sobretudo para o público infantil. A ideia era medir as habilidades cognitivas dos alunos e compará-las com as de jovens não envolvidos com a música.

O estudo foi viabilizado em 2019. Bortz iniciou conversas para recrutar voluntários com os gestores do Projeto GURI, um programa estadual de educação musical. A escolha pelo GURI tem relação com o trabalho realizado por assistentes sociais dentro do projeto. Esse contato favoreceria a aproximação com as famílias e, consequentemente, um maior engajamento dos responsáveis.

“Conseguimos observar que o grupo que estudava música se saía melhor em alguns tipos de atenção, principalmente a atenção alternada”, conta a professora. Atenção alternada é a capacidade de mudar o foco da atenção entre diferentes tarefas ou estímulos. “Os jovens músicos também apresentavam um nível um pouco maior de maturidade social”, relata.

Participaram do estudo 37 crianças de 5 a 8 anos do Programa GURI que frequentaram aulas de música em comunidades carentes de São Paulo uma vez por semana durante sete meses. Os resultados foram comparados com os dados de 61 crianças da mesma localidade, com idades de 6 a 7 anos. Além de questionários e entrevistas, foram feitos exames de ressonância magnética com as crianças. Os resultados do estudo foram publicados na revista PLOS One. “Queríamos entender se a criança foi realmente influenciada pelo treinamento que recebeu ou se já possuía propensões”, explica Bortz.

Os testes foram iniciados, mas a pandemia de covid-19, declarada em 2020, atrapalhou parte do estudo. Bortz acredita que a música atuou nesse período como “um remédio para a solidão”, hipótese que motivou uma nova fase da pesquisa, agora mais ampla e também com foco na saúde mental. O estudo está sendo conduzido no Centro Interdisciplinar para o Desenvolvimento da Pesquisa em Música (CiDPMus), criado em 2025 com o apoio da Fapesp e sediado no Instituto de Artes da Unesp.

Além do Projeto Guri, a nova etapa inclui também a Escola de Música do Estado de São Paulo (Emesp Tom Jobim). Agora, devem ser envolvidos 4 mil adolescentes e jovens que frequentam aulas dos programas no interior (Bauru, Presidente Prudente e São Carlos) e na capital, sendo consideradas idades diversas, de 13 a 28 anos. Os jovens serão acompanhados ao longo de três anos. Neste semestre, o CiDPMus deve começar a testar a escala de exposição musical dos voluntários.

“Esse estudo adota uma perspectiva interdisciplinar. O trabalho anterior adotava uma metodologia da psicologia experimental. Agora, temos psicólogos, estatísticos, médicos neurologistas e psiquiatras. Parte dos voluntários também deve realizar exames de ressonância magnética, o que também foi feito na fase anterior”, relata Bortz.

“Dentro da universidade, as ciências exatas, biológicas e mesmo as ciências humanas já têm uma metodologia muito consolidada de pesquisa científica. As artes são muito conhecidas por si mesmas, pela expressão artística, mas há pouco conhecimento de pesquisas feitas sobre a produção artística”, reflete a pesquisadora.