Confirmada na mostra panorama mundial
Faltam menos de dois meses para o início do 28º Festival do Rio, que acontece entre os dias 1 e 11 de outubro de 2026, e a edição deste ano tem seu primeiro título confirmado: Rosebush Pruning, de Karim Aïnouz. O novo longa-metragem do premiado realizador será apresentado ao público em première brasileira na mostra Panorama Mundial, reafirmando a tradição do maior festival de cinema da América Latina de trazer ao Rio de Janeiro algumas das obras mais aguardadas da produção cinematográfica internacional e de celebrar os grandes mestres do audiovisual de nosso país.
O lançamento do longa-metragem é fruto da parceria entre a distribuidora global, serviço de streaming e produtora MUBI e a distribuidora Filmes do Estação.
Segundo filme em língua inglesa dirigido por Karim Aïnouz, depois de O Jogo da Rainha (Firebrand, exibido na edição de 2023 do Festival do Rio), o filme teve sua première mundial na Competição Oficial do 76º Festival Internacional de Cinema de Berlim, em fevereiro de 2026, onde concorreu ao Urso de Ouro.
A presença de Rosebush Pruning no Festival do Rio reforça nossa vocação histórica de apresentar ao público brasileiro um panorama amplo e diverso do cinema feito em todos os continentes, reunindo grandes nomes da realização contemporânea, novas perspectivas da linguagem cinematográfica e os principais destaques dos grandes festivais de cinema de todo o mundo.
Estrelado por Callum Turner (Eternidade, 2025), Riley Keough (Daisy Jones & the Six, 2023), Elle Fanning (Valor Sentimental, 2025), Jamie Bell (Todos Nós Desconhecidos, 2023), Tracy Letts (Lady Bird: A Hora de Voar, 2017) e Pamela Anderson (The Last Showgirl, 2024), o longa-metragem traz ainda no elenco atores como Lukas Gage (Acompanhante Perfeita, 2025) e Elena Anaya (A Pele Que Habito, 2011).
Rosebush Pruning conta com o roteiro do grego Efthimis Filippou, indicado ao Oscar por seu trabalho em O Lagosta (The Lobster, exibido no Festival do Rio 2015). O roteirista é um colaborador frequente do cineasta Yorgos Lanthimos, assinando o enredo de obras como Dente Canino (Dogtooth, 2009), O Sacrifício do Cervo Sagrado (The Killing of a Sacred Deer, 2017) e Tipos de Gentileza (Kinds of Kindness, 2024). O filme é uma coprodução entre Itália, Alemanha, Espanha e Reino Unido.
Na trama do longa-metragem, uma rica família norte-americana branca vive em um isolamento hedonista, buscando amor e validação uns nos outros sob o sol da Catalunha. Quando um estranho se infiltra nesse núcleo familiar, tensões varridas para debaixo do tapete há muitos anos vêm à tona, ameaçando os frágeis laços dessa família e revelando as fissuras escondidas por trás de uma imagem de aparentemente perfeição. Uma sátira mordaz, irreverente e provocativa sobre a lógica absurda da família patriarcal, Rosebush Pruning equilibra o humor e o desconforto ao acompanhar um grupo de personagens navegando entre pelos labirintos do desejo, privilégio e violência.
Ao falar sobre o filme, Karim Aïnouz destaca que sua intenção neste projeto foi investigar aquilo que se esconde por trás das relações de intimidade e aquilo que se revela quando os privilegiados olham para si mesmos e não gostam do que veem. “Quando comecei a trabalhar em Rosebush Pruning, sabia que não estava simplesmente retratando uma família privilegiada. Estava diante de um espelho, um espelho em que intimidade, privilégio e violência colapsam uns sobre os outros até se tornarem indistinguíveis. O que procuro refletir não é um drama familiar por si só, mas aquilo que se esconde em seu interior: como o poder pode intoxicar, como o conforto se transforma em anestesia, como o silêncio disfarça o abuso”, afirmou o diretor em comunicado à imprensa.
Essa reflexão sobre estruturas familiares e relações de poder atravessa a filmografia recente de Aïnouz. Depois de investigar o ambiente doméstico no contexto da nobreza em O Jogo da Rainha e a dinâmica de uma relação abusiva em Motel Destino (2024), o cineasta volta seu olhar para a família nuclear burguesa, espaço onde, segundo ele, “microformas de poder são naturalizadas e perpetuadas sob a aparência do cuidado”. Para Aïnouz, uma família que pensa estar intocada está mais insegura do que parece: “O que significa ter tudo? O que falta quando aparentemente nada falta? Uma família cercada por dinheiro, patrimônio, estabilidade e isolamento não é necessariamente uma família segura. Pode estar excessivamente protegida, pouco exposta ao mundo e privada de qualquer atrito ou contradição. E, na ausência desse contato com o exterior, algo começa lentamente a se deformar. Algo apodrece em silêncio, sem jamais receber um nome”.
O diretor também destaca a presença do absurdo como elemento fundamental da narrativa. “Também quis abrir espaço para o estranhamento e para o absurdo. Sob essa forma feroz de poder patriarcal, os personagens se comportam como se estivessem intoxicados por um perfume de potência avassaladora. Em certos momentos rimos, mas de maneira desconfortável. Talvez o cinema seja, mais do que qualquer outro espaço, capaz de sustentar as tensões do absurdo, ao contrário dos fluxos incessantes de notícias que percorremos diariamente e que tendem a neutralizá-las. Quis levar essas tensões ao limite: provocar desconforto, constrangimento e aquele tipo de riso que imediatamente compromete quem ri, tornando o próprio espectador parte daquilo que presencia”, explica.
Na crítica publicada pela revista Time Out, o jornalista Stephen A. Russell destaca o equilíbrio entre humor, excesso e provocação presente no longa-metragem e compara o filme com a reverenciada série Succession (2018-2023). Para o autor, o roteiro do grego Efthimis Filippou proporciona “uma diversão feroz”. O crítico também chama atenção para a construção estética do filme: “Esse mundo distorcido ganha vida em verdes e vermelhos brilhantes pela diretora de fotografia Hélène Louvart, de La Chimera, e por uma trilha pulsante de Matthew Herbert, que traz referências dos Pet Shop Boys. Rosebush Pruning é um banquete extraordinário para os olhos e os ouvidos — especialmente para aqueles que gostam de um cinema delirantemente queer”.
A relação de Karim Aïnouz com o Festival do Rio é uma das mais importantes de nossa história. O diretor é o maior vencedor do Troféu Redentor de Melhor Direção de Ficção da Première Brasil, com três conquistas: por O Céu de Suely (2006), Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo (2009, em codireção com Marcelo Gomes) e O Abismo Prateado (2011). O cineasta é, até hoje, o recordista isolado da categoria.
Ao todo, 12 filmes dirigidos e/ou roteirizados por Karim Aïnouz já integraram a programação do Festival do Rio, entre longas, curtas, ficções, documentários e o filme coletivo experimental Destricted.br (2011).
Desde a primeira edição do evento, em 1999, quase 40% das edições do Festival já apresentaram ao menos uma obra do realizador, que também presidiu o júri da Première Brasil no 16º Festival do Rio (2014), num colegiado composto Andrea Barata Ribeiro, Malu Mader, Maurizio Braucci e Mike Downey no ano em que Sangue Azul (2014), de Lírio Ferreira, foi o grande vencedor da competição principal.
“Para mim é motivo de honra que a minha história esteja tão intrinsecamente ligada à do festival”, comentou Aïnouz em entrevista para o site do Festival em 2024. “O Festival do Rio, é como uma casa para mim. Guardo na memória momentos icônicos que vivi no festival. É um lugar de suma importância para a veiculação e celebração do cinema nacional. Fico realmente muito honrado de estar presente nessa história”, completou o cineasta na ocasião.


