Foto: Fabiano Bulow
O lambari carrega um lugar especial na memória afetiva de boa parte dos brasileiros. Presente em rios, córregos e lagoas de quase todo o território nacional, o peixe costuma marcar as primeiras pescarias da infância, ao lado de pais, avós e tios. Além do valor cultural, a espécie ganha cada vez mais relevância econômica. Ou como alimento, tradicionalmente consumido em forma de petisco, ou como isca viva na pesca esportiva.
Durante décadas, produtores dependeram quase exclusivamente da captura em ambientes naturais ou da presença do lambari como fauna acompanhante em cultivos de peixes comerciais. O termo “lambari” reúne diversas espécies de pequenos caracídeos, família numerosa de peixes de água doce. O Instituto de Pesca (IP-APTA) assumiu papel pioneiro na geração de conhecimento científico e tecnológico voltado ao cultivo comercial de espécies como Astyanax fasciatus, Astyanax lacustris e Deuterodon iguape.
Para o pesquisador do IP Fábio Sussel, a consolidação da lambaricultura como atividade aquícola exigiu tecnologias específicas, capazes de tornar a produção previsível, eficiente e economicamente viável.
Pesquisa e inovação fortalecem a produção
Nas últimas décadas, o Instituto de Pesca desenvolveu e aperfeiçoou protocolos para diferentes etapas do processo produtivo, o que ajudou a consolidar uma cadeia até então inexistente em escala comercial.
Entre as principais contribuições, os pesquisadores aprimoraram os protocolos de reprodução induzida, essenciais para garantir produção contínua de alevinos ao longo do ano. A equipe também desenvolveu técnicas de larvicultura e recria em diferentes sistemas de cultivo, adaptadas às características biológicas de cada espécie estudada.

Esses avanços trouxeram mais regularidade à produção, aumentaram a sobrevivência dos peixes e melhoraram os índices zootécnicos, o que oferece maior segurança técnica aos produtores. Paralelamente, o instituto ampliou suas linhas de pesquisa para outras frentes estratégicas. Criou tecnologias para produção de lambaris destinados ao mercado de iscas vivas, avaliou o potencial da espécie em sistemas de aquaponia e passou a utilizar diferentes lambaris como bioindicadores em estudos de ecotoxicologia, voltados a avaliar contaminantes ambientais e a qualidade dos ecossistemas aquáticos.
Nova tecnologia amplia o potencial do lambari para consumo
O lambari também ocupa lugar de destaque como alimento tradicional de alto valor gastronômico. Apesar dessa vocação, um gargalo tecnológico limitava a ampliação do consumo em larga escala: o processamento do pescado.
Para resolver esse desafio, Fábio Sussel propôs a criação de uma máquina para evisceração de lambaris. Uma empresa de Santa Catarina, especializada em equipamentos para frigoríficos de peixes, desenvolveu o equipamento posteriormente. A máquina automatiza uma das etapas mais críticas do processamento, aumenta significativamente a produtividade, reduz custos operacionais e agrega valor ao pescado destinado ao consumo humano.
Segundo Sussel, essa inovação representa um exemplo concreto de pesquisa aplicada. O Instituto de Pesca transforma resultados científicos em soluções tecnológicas capazes de atender demandas reais da sociedade. Além de fortalecer cadeias produtivas estratégicas para a aquicultura brasileira.
Mais do que um peixe ligado à memória afetiva dos brasileiros, o lambari se tornou exemplo de como a pesquisa pública pode converter conhecimento científico em desenvolvimento econômico, inovação e segurança alimentar.
Fonte Agro em Campo



