A mistura de xarope para tosse à base de codeína com medicamentos como analgésicos e anti-histamínicos, além de bebidas alcoólicas ou refrigerantes, conhecida como “purple drank” ou “lean”, voltou a chamar a atenção após se tornar uma tendência entre adolescentes nas redes sociais. O consumo da bebida pode causar intoxicações graves, levar à emergência médica e, em casos extremos, provocar a morte.

Há quase um mês, um estudante de 15 anos precisou ser internado em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) após ingerir uma mistura de gin, Fenergan, dipirona, ibuprofeno e cinco tipos diferentes de anti-histamínicos. O caso ocorreu durante o intervalo das aulas de uma escola particular em Fortaleza, no Ceará. Segundo informações apuradas, o adolescente teria consumido a bebida após ser desafiado por um colega.
O médico internista Bruno Cavalcante, que participou do atendimento, relatou que o jovem chegou ao hospital com sinais evidentes de intoxicação.
“Parecia estar bêbado, com fala arrastada, desorientado e mal conseguia ficar de pé”, afirmou.
De acordo com o especialista, o adolescente apresentava quadro de letargia, sonolência excessiva e dificuldade para reconhecer as pessoas ao redor.
O que acontece no corpo é simples e brutal: o álcool potencializa o efeito sedativo desses medicamentos. O cérebro desacelera. A respiração desacelera. E, em casos graves, para. Silenciosamente. Sem aviso.
Após permanecer mais de 30 horas dormindo, o estudante despertou e se recuperou sem sequelas.
O médico aproveitou o episódio para alertar pais e responsáveis sobre os riscos da prática.
“Preste atenção. Seu filho não precisa de muita coisa. Basta uma dose de gin com algumas medicações que podem ser compradas na farmácia para acontecerem situações que levam o paciente à emergência. Então fica o alerta”, disse.
Como surgiu o “purple drank”
O “purple drank”, também conhecido como “lean”, ganhou popularidade nos Estados Unidos na década de 1990, impulsionado por artistas do rap, hip-hop e trap. A bebida era tradicionalmente preparada com xarope de codeína misturado a refrigerante e, em alguns casos, balas.

Um dos principais responsáveis pela popularização da substância foi o rapper e produtor DJ Screw, criador do estilo musical “chopped and screwed”. O gênero era caracterizado por batidas desaceleradas que simulavam os efeitos causados pela codeína e outros depressores do sistema nervoso central. Anos depois, o artista morreu em decorrência de uma overdose relacionada à substância.
Um levantamento da ONG norte-americana Project Know apontou que as bebidas à base de xarope de codeína foram a terceira droga mais citada em letras de rap entre 1988 e 2013. Entre os artistas que mencionaram o consumo da mistura estão Lil B, A$AP Rocky, Money Boy, Starlito e Papoose.
A partir de meados de 2015, o consumo da bebida também começou a ganhar espaço no Brasil. Atualmente, referências ao “lean” aparecem em músicas, videoclipes e conteúdos publicados nas redes sociais. Em algumas plataformas, jovens compartilham vídeos mostrando o preparo da mistura e incentivando sua experimentação.
O que antes circulava principalmente no universo da música passou a integrar o ambiente digital e, para muitos adolescentes, tornou-se uma tendência. Para Cavalcante, a popularização da bebida nas redes sociais contribui para a falsa percepção de que seu consumo seria inofensivo.
Existe uma glamourização nas redes sociais, em músicas e em alguns grupos. O jovem vê como estética, como status ou como algo “menos perigoso” por vir de um remédio. Mas remédio fora de indicação médica vira droga. E droga não é brincadeira.
No Brasil, a codeína é classificada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) como substância entorpecente e sua comercialização depende de prescrição médica.
Principais dúvidas sobre o purple drank
O médico Bruno Cavalcante esclarece os riscos da mistura, os sinais de intoxicação, o potencial de dependência e os cuidados necessários em casos de overdose.
- Quais são os sinais de alerta?
Os sinais de alerta são sonolência excessiva, confusão mental, fala arrastada, tontura, dificuldade para ficar acordado, respiração lenta ou irregular, desmaio e até convulsões. Se a pessoa está muito sonolenta e respirando mal, isso é emergência médica. - Quais são os riscos?
A mistura pode causar dependência, sedação intensa e até parada respiratória. Quando uma substância que deprime o sistema nervoso é usada em dose inadequada ou misturada com álcool, ansiolíticos ou outras drogas, o cérebro pode reduzir o nível de consciência e a respiração pode ficar lenta. Em casos graves, o paciente pode evoluir para coma e morte. - O uso de purple drank pode levar à morte?
Pode. Principalmente quando envolve opioides e mistura com álcool, benzodiazepínicos, anticonvulsivantes, antidepressivos sedativos ou outras substâncias depressoras. O grande risco é a depressão respiratória: a pessoa dorme profundamente, parece apenas “apagada”, mas na verdade pode estar respirando cada vez menos. - Existe risco de dependência?
Sim. A codeína é um opioide. O uso repetido pode gerar tolerância, ou seja, a pessoa precisa de doses cada vez maiores para sentir o mesmo efeito, além de dependência e sintomas de abstinência. Isso pode virar um ciclo muito difícil de sair sem ajuda. - O que a família deve fazer se suspeitar que alguém usou?
Não é para esperar “passar”. Se houver rebaixamento do nível de consciência, respiração lenta, redução da frequência cardíaca, desmaio ou lábios arroxeados, a orientação é acionar o SAMU ou levar imediatamente a um serviço de urgência. Também é importante não deixar a pessoa sozinha, não oferecer mais bebida ou medicamento, e informar aos profissionais de saúde o que foi usado, se souber.
Fonte iG

