Dependência digital em adolescentes
O impacto do isolamento social vivido entre os 6 e 12 anos, somado ao uso massivo de telas e às incertezas do mercado de trabalho, alterou os padrões de comportamento, os índices de saúde mental e a convivência familiar dos adolescentes. Segundo levantamento do Global Burden of Disease (GBD) publicado na revista The Lancet em 2026, 15,6 milhões de brasileiros de 5 a 29 anos convivem com transtornos mentais, sendo a ansiedade a principal causa de incapacidade não fatal.
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam um aumento global de 25% na prevalência de ansiedade e depressão desde o primeiro ano da pandemia, e que 1 em cada 7 jovens de 10 a 19 anos no mundo possui algum transtorno mental diagnosticado ou subnotificado. No Brasil, pesquisas do IBGE reforçam o quadro: 61% das adolescentes relatam preocupação excessiva com o cotidiano e 58,1% apresentam irritabilidade frequente.
“A interrupção da rotina presencial na faixa entre 6 e 12 anos privou as crianças do ambiente escolar, essencial para a construção do senso de competência social, manejo de conflitos e frustrações. A criança constrói a confiança no ambiente social na escola e no convívio com os colegas. O fechamento desses espaços interrompeu o treino natural de convivência. Hoje, os altos índices de ansiedade refletem a ausência dessas experiências práticas essenciais na rotina de desenvolvimento”, afirma Rute Grossi, professora de Psicologia da UniCesumar Maringá.
Dependência de telas e reflexo no comportamento presencial
Durante o período de distanciamento, o ambiente digital substituiu o contato presencial e o uso prolongado de dispositivos reduziu a tolerância dos jovens ao tempo de espera, ao silêncio e ao diálogo direto. “A mediação por algoritmos e a oferta ininterrupta de conteúdos nas redes sociais limitam os momentos de ócio, tédio e pausa necessários à simbolização do sofrimento e a vivência de frustrações. O resultado é a busca por prazer imediato sem espaço para a reflexão emocional, o que impacta o amadurecimento dos adolescentes e interfere no processo educativo conduzido pelos pais”, explica a professora da UniCesumar,
A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), por meio do manual #MenosTelas #MaisSaúde, orienta os seguintes limites para a faixa etária de 11 a 18 anos: de 2 a 3 horas diárias para uso de telas e jogos, restrição absoluta durante as refeições e desconexão total de 1 a 2 horas antes de dormir. A intervenção recomendada envolve a criação de alternativas presenciais estruturadas, como a prática de esportes, atividades ao ar livre e encontros com amigos, em vez do bloqueio isolado das telas sem oferta de pertencimento social.
Diferenciação clínica e reestruturação familiar
A identificação de quadros clínicos exige a observação da persistência dos sintomas. Enquanto a angústia típica da adolescência é pontual e motivada por eventos específicos (como provas escolares ou conflitos pontuais), o diagnóstico de ansiedade ou depressão é demarcado pela presença contínua de sintomas por semanas seguidas, além da perda de desempenho escolar, recusa sistemática a convites de socialização, alterações persistentes no padrão de sono e apetite, e irritabilidade constante e abandono de atividades antes prazerosas.
A mudança nas rotinas domésticas durante a pandemia também alterou a autoridade parental. O confinamento centralizou trabalho, estudo e lazer no mesmo espaço físico, diluindo os limites de convivência. “A autoridade parental perdeu sustentação com a sobreposição de papéis no mesmo ambiente. Para reestruturar esse vínculo, a presença diária e constante, como uma refeição sem celular ou uma conversa, é mais eficaz do que a imposição de regras rígidas sem diálogo. Limites combinados com o adolescente garantem maior adesão e sustentam uma relação baseada em afeto e contorno seguro enquanto o jovem experimenta e define quem ele é”, conclui Rute Grossi.




