Imagem: Ytallo Barreto
A voz de Lia de Itamaracá atravessa décadas como quem carrega o mar dentro do peito. Figura central da cultura popular pernambucana, a artista prepara agora um novo mergulho em sua própria trajetória com a série Maria Madalena – Lia de Itamaracá, produção audiovisual em seis episódios de 23 minutos que pretende revisitar não apenas a artista conhecida pelo Brasil, mas sobretudo a mulher por trás do mito. O piloto da produção, incentivado com recursos do Funcultura Audiovisual, começou a ser gravado essa semana na praia de Jaguaribe, em Itamaracá. O episódio servirá para a equipe da Ciranda Produções buscar patrocínio para a gravação da obra.
Entre documentário e ficção, a série vai reconstruir caminhos, dores, afetos e conquistas de Maria Madalena Correia do Nascimento, que transformou a ciranda em símbolo de identidade cultural brasileira. A produção acompanha desde a infância marcada pela pobreza e pela exclusão até o reconhecimento nacional e internacional.
“Eu sempre soube que seria artista. O povo ria de mim quando eu dizia isso ainda menina, porque naquele tempo uma mulher preta, pobre e da Ilha sonhar isso tudo parecia impossível. Mas eu nunca deixei de acreditar na minha voz, na minha ciranda e na minha história”, relembra Lia.
A proposta da série nasce do desejo da própria artista de registrar aquilo que ela chama de “a Lia antes da Lia”. Ou seja: a trajetória de Maria Madalena antes da consagração nos palcos e da fama. Uma história atravessada por questões raciais, sociais e territoriais, mas também pela força simbólica de uma mulher negra que transformou adversidade em permanência.
Ao longo de mais de seis décadas de carreira, Lia lançou quatro álbuns, tornou-se Patrimônio Vivo da Cultura Pernambucana, recebeu o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal de Pernambuco e foi homenageada por instituições no Brasil e no exterior. Sua trajetória também dialoga com o cinema, tendo participado de produções de nomes como Tizuka Yamasaki, Lírio Ferreira e Kleber Mendonça Filho, em Bacurau e Recife Frio. Ao longo de 10 anos, uma equipe liderada pela cineasta Lia Letícia e pelo produtor Beto Hees já produziu mais de 10 mini-docs sobre Lia de Itamaracá, além de videoclipes e curta-metragens, como Encantada (2012).
“Contar a história de Lia é também contar a história de um Brasil profundo, popular e muitas vezes invisibilizado. Quando falamos de Lia, não estamos falando apenas de uma artista consagrada, mas de uma mulher negra, nordestina e periférica que atravessou décadas resistindo através da cultura. A trajetória dela reúne questões de território, ancestralidade, memória, racismo, pertencimento e sobrevivência”, afirma a diretora Lia Letícia.
Aos 82 anos, Lia segue em movimento. Recentemente, a cirandeira lançou o quinto disco de sua carreira em parceria com a cantora baiana Daúde. Intitulado Pelos Olhos do Mar, o trabalho chegou às plataformas de streaming pelo SeloSesc e reúne um repertório que atravessa diferentes sonoridades, aproximando a cultura popular pernambucana de elementos do bolero, dub e linguagens urbanas contemporâneas. Entre faixas inéditas e releituras, o álbum dialoga com composições de nomes como Emicida, Russo Passapusso, Céu, Otto e Chico César. Nos últimos anos, Lia participou da feira internacional de música Womex, em Lisboa, foi tema de ocupações culturais em São Paulo e no Recife e inspirou enredos de escolas de samba como a Império da Tijuca e a Nenê de Vila Matilde.
Agora, transforma a própria vida em narrativa audiovisual. Uma história onde memória, território, música e resistência caminham de mãos dadas, como numa grande roda de ciranda à beira-mar.
