Produção de pequenos agricultores diminui o desperdício de alimentos e aumenta a renda

O Brasil desperdiça atualmente cerca de 30% de toda a comida que produz, um volume que varia de 46 a 55 milhões de toneladas e gera perdas anuais estimadas em R$ 61,3 bilhões. Esse cenário é diretamente agravado por um histórico déficit logístico e de armazenagem. Como solução imediata para estancar essas perdas e fortalecer a economia regional, especialistas apontam para a adoção das chamadas cadeias curtas de comercialização. O modelo, caracterizado pela venda direta ou com a presença de apenas um intermediário, tem o potencial de transformar a dinâmica do agronegócio familiar no país.

Foto: Albino Oliveira – Ascom/MDA

Segundo Maquiel Vidal Nardon, coordenadora do curso de Agronomia da UNIASSELVI, a redução de etapas entre o campo e a cidade é uma necessidade urgente. “Ao encurtar a distância entre a colheita e a mesa, combatemos o desperdício na sua raiz e garantimos que o alimento chegue mais fresco e com preço justo para todos. É uma via de mão dupla onde o produtor ganha sustentabilidade financeira e a sociedade ganha segurança alimentar”, destaca.

O impacto financeiro desse modelo para o pequeno produtor é transformador. Hoje, a agricultura familiar representa 77% das propriedades rurais brasileiras, mas retém apenas 23% do valor bruto da produção no formato longo e tradicional, no qual os atravessadores dominam as margens, deixando apenas de 20% a 30% do valor final nas mãos de quem efetivamente planta.

Nas cadeias curtas, essa lógica se inverte: o produtor chega a reter de 80% a 90% do valor. Políticas públicas também têm impulsionado essa virada, a exemplo da retomada de investimentos no Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e a meta de que o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) alcance 45% das compras vindas da agricultura familiar até 2026.

Menos distância, mais aproveitamento

No modelo tradicional, o trajeto é o grande vilão: estima-se que 10% dos grãos e de 40% a 50% das frutas e hortaliças se percam pelo caminho antes de chegarem aos supermercados. Com menos tempo de transporte e manuseio, a logística direta feita pelos produtores reduz drasticamente esses números. Além disso, a proximidade com o comprador final muda a percepção sobre a estética da comida.

“No contato direto, o produtor consegue escoar produtos “imperfeitos”, que são perfeitamente nutritivos e saudáveis, mas que muitas vezes seriam descartados pelo varejo tradicional apenas por fugirem do padrão visual. Essa relação de confiança também ajuda o agricultor a planejar melhor o plantio, evitando a superprodução e a consequente perda na lavoura”, explica a coordenadora da UNIASSELVI.

Inovação acessível: o processamento mínimo

Outra oportunidade rentável para os pequenos produtores é o processamento mínimo, técnicas acessíveis como lavar, descascar, cortar e embalar os itens in natura. Esse nicho de mercado cresce cerca de 20% ao ano no Brasil e não exige investimentos exorbitantes por parte das famílias agricultoras. Além das mais de 922 feiras orgânicas ativas no país e da formação de grupos de consumo consciente, entregar conveniência por meio do processamento mínimo é uma forma eficaz de agregar valor ao produto e atender à demanda urbana por praticidade.

O sucesso desse modelo, no entanto, depende ativamente do consumidor. De acordo com último levantamento da consultoria McKinsey, 69% dos brasileiros priorizam equilíbrio entre preço e qualidade na hora da compra e 36% têm interesse genuíno em apoiar marcas locais. Para a coordenadora da UNIASSELVI, a mudança de hábito é o último elo dessa corrente. “O consumidor deve priorizar as feiras locais, compreender a sazonalidade dos alimentos, que são mais baratos e saborosos no seu tempo natural de colheita, e exigir transparência. Ao fazer essas escolhas, ele não está apenas comprando comida, mas investindo e desenvolvendo a economia da sua própria região”, conclui Nardon.