Pesquisa da UFPE mostra que índices altos de dengue estão onde há menor qualidade de vida

Uma pesquisa desenvolvida pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) que analisou dados de dengue ao longo de uma década revela que o risco da doença no Recife acompanha padrões de desigualdade urbana, sendo maior em áreas com maior densidade populacional, renda mais baixa e infraestrutura precária.

Além da dengue e da chikungunya, o Aedes transmite o vírus zika

O estudo identificou que regiões norte e oeste da cidade concentram os maiores níveis de risco epidemiológico, com projeções indicando persistência da transmissão até 2026. A pesquisa analisou casos confirmados entre 2015 e 2024 e aponta que fatores sociais, ambientais e climáticos, como tamanho das famílias, chuva e renda, influenciam diretamente a disseminação da doença.

A pesquisa parte de uma premissa de que o espaço urbano é um fator determinante na dinâmica de transmissão da dengue. O estudo mostra que características do território, como densidade populacional, condições ambientais e infraestrutura urbana, influenciam diretamente a proliferação do mosquito transmissor e a permanência de ciclos epidêmicos.

Os pesquisadores analisaram dados epidemiológicos, socioeconômicos e ambientais de 94 bairros da capital pernambucana, considerando variáveis como renda média, densidade populacional, tamanho médio das famílias, precipitação, temperatura e presença de canais de drenagem. A modelagem permitiu identificar padrões persistentes de risco ao longo do tempo e no território.

Segundo o estudo, a cidade apresenta contrastes entre áreas centrais e periféricas em termos de renda, qualidade habitacional e infraestrutura urbana. Bairros com menor renda e cobertura limitada de saneamento apresentam condições mais favoráveis à formação de criadouros do mosquito e à manutenção da transmissão da doença. A pesquisa conclui que a desigualdade territorial gera desigualdade epidemiológica.

Dez anos de coleta de dados 

Para investigar a evolução da doença, os pesquisadores analisaram casos confirmados registrados no Sistema de Informação de Agravos de Notificação entre 2015 e 2023, além de projeções até 2024. Também foram incorporados dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre renda e demografia, além de informações climáticas e ambientais.

A pesquisa recebeu o nome de “Modelagem Bayesiana Hierárquica da Dengue no Recife, Brasil (2015-2024): O Papel da Granularidade Espacial e da Qualidade dos Dados no Mapeamento do Risco Epidemiológico”.

O estudo utilizou um modelo estatístico capaz de integrar simultaneamente fatores sociais, ambientais e temporais. A metodologia permite estimar o risco real de transmissão em cada área, corrigindo distorções associadas ao tamanho dos bairros e à distribuição populacional.

A análise mostrou que a densidade populacional e o número médio de moradores por residência apresentam forte associação positiva com o risco de dengue. Isso indica que ambientes com maior concentração de pessoas favorecem a transmissão.

Já a renda média apresentou relação inversa com o risco, sugerindo que melhores condições socioeconômicas e infraestrutura urbana reduzem a incidência da doença. A presença de canais de drenagem também foi associada à diminuição do risco, enquanto o aumento das chuvas elevou a incidência.

Desigualdade territorial define zonas de risco

Os resultados apontam uma distribuição espacial desigual da doença no território recifense. As regiões norte e oeste da cidade apresentaram os maiores níveis de risco, coincidindo com áreas de maior vulnerabilidade social e alta densidade populacional.

A pesquisa aponta que a região norte combina setores de renda mais alta com extensas áreas periféricas situadas em encostas e áreas com infraestrutura limitada, onde a topografia e as condições habitacionais favorecem a formação de criadouros. Já a Zona Oeste, predominantemente plana, apresenta maior vulnerabilidade socioeconômica e condições ambientais propícias à transmissão.

Em contraste, as regiões sul e leste registraram menor risco, associado a melhores condições de infraestrutura urbana e maior renda domiciliar.

A análise também identificou pequenos focos em bairros centrais, sugerindo influência de fatores ambientais locais, como drenagem deficiente e problemas de saneamento.

Além de analisar dados históricos, o estudo realizou projeções para os anos de 2025 e 2026. Os resultados indicam um cenário de endemicidade estável, com média prevista entre cinco e dez casos por quilômetro quadrado.

Alguns bairros apresentam projeções mais altas, com risco superior a 15 casos por quilômetro quadrado, enquanto outros permanecem em níveis baixos. Entre os bairros com maiores riscos estão Campina do Barreto, Alto do Mandu, Totó e Ponto de Parada.

Segundo os pesquisadores, a estabilidade das projeções significa persistência da doença no ambiente urbano. A continuidade da transmissão indica que fatores estruturais da cidade mantêm condições favoráveis ao ciclo epidemiológico.

Clima e ambiente afetam a transmissão

A pesquisa também identificou forte influência de fatores climáticos na dinâmica da dengue. O aumento das chuvas mostrou associação direta com a incidência da doença, especialmente com defasagem de um mês, o que sugere tempo necessário para o desenvolvimento do mosquito.

Segundo a pesquisa, temperaturas médias mais elevadas apresentaram relação inversa com a incidência, possivelmente devido a limites térmicos que reduzem a sobrevivência das larvas.

Esses resultados indicam que a dengue resulta da interação entre condições climáticas e estrutura urbana, com o ambiente físico da cidade atuando como fator determinante da transmissão.

Um dos avanços metodológicos do estudo foi a inclusão do tamanho territorial dos bairros na análise, permitindo calcular a densidade ambiental do risco, ou seja, o número de casos em relação à área e às características do território.

Essa abordagem mostrou que o risco depende da quantidade de habitantes e da estrutura física do espaço urbano, como topografia, cobertura vegetal e infraestrutura de drenagem. Isso indica que o território em si pode funcionar como fator estrutural de risco epidemiológico, independentemente da população residente.

Implicações para políticas públicas

O estudo destaca que os resultados podem contribuir para o planejamento de políticas públicas mais direcionadas. A identificação de áreas críticas permite priorizar ações de vigilância epidemiológica, saneamento e controle do vetor.

A pesquisa sugere que estratégias baseadas apenas em indicadores populacionais podem ser insuficientes, defendendo a necessidade de incorporar fatores territoriais e ambientais no planejamento da saúde pública.

A pesquisa aponta ainda que modelos estatísticos desse tipo podem ser usados para sistemas de alerta precoce e planejamento territorial, auxiliando gestores na alocação de recursos e na prevenção de surtos.