Os primeiros mil dias moldam o futuro do bebê

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Especialistas do CEJAM explicam por que período é decisivo


Os primeiros mil dias de vida, que vão da concepção até os dois anos de idade, são essenciais para o desenvolvimento humano. Esse período concentra transformações importantes que influenciam no futuro do bebê e pedem atenção, cuidado e presença. 

“É neste momento que há a oportunidade de atuar para o crescimento saudável de aspectos fisiológicos, cognitivos e emocionais da criança, que vão impactar até a sua vida adulta”, explica a Dra. Glória Zenha, pediatra e assessora técnica do CEGISS (Centro de Gerenciamento Integrado de Serviços de Saúde) do CEJAM – Centro de Estudos e Pesquisa “Dr. João Amorim”.       

Segundo ela, é nessa fase que o cérebro cresce de forma mais acelerada e estabelece grande parte das conexões neurais ligadas à aprendizagem, à linguagem e à regulação emocional. 

Nesse sentido, o Ministério da Saúde e a Organização Mundial da Saúde reforçam que uma base bem construída pode influenciar desde o desempenho escolar até a saúde física e emocional na vida adulta. 

O que o recém-nascido precisa para se desenvolver bem 

Dra. Glória destaca que o vínculo afetivo é um dos pilares centrais para o amadurecimento de habilidades como empatia e autonomia. “Interações frequentes, como segurar no colo, olhar nos olhos, responder ao choro e às expressões do bebê, fortalecem o sentimento de segurança”, afirma.  

A alimentação também ocupa um lugar essencial, aliando nutrição e conexão. A recomendação é de aleitamento humano exclusivo até os seis meses, seguido da introdução alimentar adequada, mantendo a amamentação de forma complementar até, pelo menos, os dois anos.  

Além disso, ações como conversar, cantar, ler histórias, permitir que o bebê explore o ambiente com segurança e manter uma rotina organizada também ajudam a construir referências importantes para o crescimento. 

Por outro lado, a pediatra alerta que a ausência desses cuidados de maneira adequada pode levar a dificuldades de aprendizagem, problemas de comportamento e maior vulnerabilidade a doenças ao longo da vida. 

Técnica Shantala como acolhimento  

Entre os estímulos que fortalecem o progresso nos primeiros meses de vida, o toque tem um papel fundamental. É nesse contexto que a Shantala aparece como uma prática simples e acessível.      

“A técnica é uma massagem indiana para recém-nascidos, com movimentos lentos, suaves e rítmicos realizados com óleo em todo o corpo”, esclarece a enfermeira Nadiane Martins, da UBS Jardim São Bento, unidade gerenciada pelo CEJAM em parceria com a Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo (SMS-SP).  

Conforme a profissional, o método atua em diferentes frentes. “Visa fortalecer o vínculo afetivo, promover relaxamento profundo, melhorar a qualidade do sono, aliviar cólicas e até congestão nasal.”      

Os efeitos também favorecem a evolução física. “Estimula o desenvolvimento motor, a consciência corporal e fortalece o sistema imunológico”, completa.  

A atividade se destaca, ainda, pelo impacto na relação. “Há fortalecimento do vínculo e da qualidade da relação do binômio mãe-bebê, melhora do sono, alívio das cólicas, diminuição do estresse e essa sensação de aconchego, de se sentir amado e protegido”, diz Nadiane. 

A massagem pode ser aprendida com facilidade e não exige recursos complexos, mas pede atenção ao momento. “É preciso observar os movimentos, a sequência, a forma da pressão e se o bebê está confortável”, orienta. Também é importante respeitar o contexto. A técnica pode ser iniciada após 30 dias de vida, em um ambiente tranquilo, e deve ser evitada em situações como febre, doenças de pele, dor, após a alimentação ou quando o recém-nascido não estiver bem. 

Nas UBSs gerenciadas pelo CEJAM, na zona sul de São Paulo, a Shantala é ensinada em encontros mensais e em grupos de gestantes. “A técnica é realizada com bonecas e cada participante pode praticar os movimentos durante a atividade”.  

Foi assim que Stefani Machado conheceu o método. Durante o acompanhamento mensal da filha, hoje com 4 meses, ela recebeu o convite para participar da atividade.  

A experiência foi se construindo aos poucos. “Trouxe mais carinho, atenção e conexão. Com as orientações fui ganhando confiança”, relata. Com o tempo, ela começou a perceber mudanças no comportamento da filha. “Sinto ela mais tranquila e relaxada pós massagem”, diz. 

Mãe de primeira viagem, ela reforça que o acompanhamento contínuo contribui para a melhoria da rotina. “Me sinto acolhida e mais segura”.     

Segundo Nadiane, esse é um dos principais objetivos da atenção básica. “É uma forma de reduzir a vulnerabilidade ao adoecimento e trazer uma abordagem diferente do cuidado, com orientação, troca e apoio nesse processo de adaptação”, pontua.      

Apoio que começa perto de casa: Linha de Cuidado da Criança e do Adolescente 

Nas unidades gerenciadas pelo CEJAM, práticas como a Shantala fazem parte de um conjunto de ações estruturadas para acompanhar pacientes desde a gestação até a adolescência e estão inseridas na  linha de cuidado da criança e do adolescente.      

Lançada em junho de 2025, a iniciativa foi criada para dar mais integração e continuidade ao atendimento. Segundo Gilcinete Barreto, Supervisora Técnica e uma das responsáveis pelo acompanhamento das Linhas de Cuidado Integrais do CEJAM, isso significa que o atendimento não acontece apenas quando há uma demanda imediata, mas de forma programada, com consultas de puericultura, avaliação do crescimento, vacinação, orientações sobre alimentação e escuta ativa das famílias. 

A proposta é evitar que a assistência seja fragmentada. “São criadas ações de promoção da saúde, prevenção de doenças e acompanhamento do desenvolvimento infantil, integrando diferentes profissionais da equipe de saúde para oferecer cuidado contínuo e qualificado”, afirma Gilcinete. 

Esse modelo também amplia o olhar sobre a criança, incorporando aspectos emocionais e sociais ao cuidado. “O principal foco é promover o crescimento saudável, prevenir agravos, identificar precocemente possíveis problemas de saúde e garantir acesso oportuno aos serviços necessários”, enfatiza a supervisora.    

Outro ponto central é o envolvimento das famílias. São pais e cuidadores que levam para casa o que aprendem nas unidades e transformam as orientações em prática no dia a dia. “Quando os responsáveis participam ativamente, aumentam as chances de promover um ambiente mais saudável, estimulante e seguro para a criança”, diz a pediatra. 

Ao organizar o cuidado dessa forma, a proposta é ampliar o impacto das ações justamente nos primeiros anos de vida. “Nosso objetivo é garantir um desenvolvimento físico, motor e cognitivo saudável, respeitando cada faixa etária”, conclui Dra. Glória.