Nana Gouvêa desabafa sobre abusos e violência sexual

Nana Gouveia


A atriz e modelo Nana Gouvêa, de 50 anos, tornou público que foi obrigada a se casar aos 16 anos após engravidar. Ela contou que sofreu violência sexual quando era adolescente, descobriu que estava grávida e foi forçada pela família a manter um relacionamento com o homem. A declaração foi feita após a repercussão de um caso julgado pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais, que absolveu um homem condenado por estupro contra uma menina de 12 anos.

Nana Gouveia

Em depoimento emocionado a Quem, Nana expôs os abusos que sofreu desde a infância, contou ter sido assediada pela primeira vez aos seis anos de idade, e ter perdido a virgindade em um estupro. Ela revelou ainda que, ao longo dos anos, enfrentou novas situações de violência, inclusive dentro do próprio círculo familiar. Sem qualquer orientação sobre sexualidade e limites, cresceu carregando medo, culpa e silêncio.

Nana relatou que vivia em um ambiente doméstico marcado por controle e violência psicológica. Segundo ela, o pai mantinha uma imagem respeitada socialmente, mas dentro de casa exercia domínio financeiro e emocional sobre a mãe e as filhas. Na adolescência, após engravidar, foi agredida e responsabilizada pela situação. “A culpa é sempre da mulher”, lamenta.

Já adulta, viveu um relacionamento abusivo. Durante o parto da segunda filha, o então marido a impediu de realizar uma laqueadura previamente autorizada, usando a legislação para decidir por ela enquanto estava anestesiada. O episódio marcou profundamente sua trajetória. “Chorei o parto inteiro. Ele me roubou o sorriso de ver minha filha nascer”, lembra.

A virada veio quando ela decidiu deixar o casamento e recomeçar a vida no Rio de Janeiro, onde construiu a carreira artística e conquistou independência financeira. Hoje, vivendo nos Estados Unidos e com as filhas adultas, Nana fala sobre o passado para alertar outras mulheres e meninas. Para ela, o enfrentamento da violência passa por educação sem tabus, informação clara sobre o corpo e a quebra do silêncio. “A vítima não tem culpa. Nunca”, afirma.

Leia o depoimento na íntegra:

“Fui criada nessa mesma região [do caso julgado pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais]. Eu e minha irmã sofremos muito assédio quando éramos crianças. Fui assediada pela primeira vez aos 6 anos por um senhor idoso, amigo do meu pai. Fui abusada sexualmente. Aos 8 anos, aconteceu de novo, desta vez com gente da família. Cresci muito traumatizada. Não tinha coragem de sair na rua para brincar porque tinha medo que alguém fosse me pegar de novo. Então atravessava a rua e ia para a casa da minha amiga Gisele — que aos 12 anos parecia uma adulta para mim. Ouvia Menudo e voltava para casa. Aos 10 anos, comecei um namoro que durou seis anos. Ele veio a ser meu primeiro marido e pai das minhas filhas. Naquela época, eu não tinha consciência de que aquilo era um abuso.

Quando meu pai soube do meu namoro com um rapaz mais velho, ele me culpou, dizendo que eu era ‘passada’. Era algo estrutural. Meu pai assediou minha mãe quando era professor de matemática dela. Ele tinha 32 anos e ela 16. Minha mãe vivia um abuso psicológico e financeiro. Ele era um homem rico, mas se negava a dar dinheiro para ela fazer a manicure ou ir a um restaurante. Na época do Plano Collor, descobrimos que ela nem sequer tinha conta bancária própria; ele usava o nome dela apenas para proteger o dinheiro dele. Para a sociedade, ele era o ‘bonzinho’, mas dentro de casa era um monstro.

Lembro-me de quando eu tinha 14 anos e minha irmã 15. Fomos convidadas para um suposto churrasco na casa de vizinhos. Chegando lá, não havia comida, apenas dois homens de cerca de 40 anos. Um deles me levou para o banheiro. E ali perdi a virgindade, em um estupro. Eu só entendi que aquilo era a minha primeira vez porque vi o sangue. Até então, eu não sabia que o pénis entrava na vagina. E tem esse esse tabu de não querer ensinar sobre isso nas escolas. Os pais têm vergonha, têm medo de falar com as filhas. E a gente cresce completamente exposta a todo tipo de abuso e crueldade.

O trauma é irrecuperável. Irrecuperável! Já fiz muita terapia, já mudei de país, já mudei de cidade, já mudei de relações e cada vez que me deparo com uma situação dessa na internet, do outro lado do continente, isso me revolta. Eu me lembro de quando estudava no colégio Messias Pedreiro em Uberlândia (MG), e tinha 12 anos. Os meninos da escola — que nunca soube quem foram — escreveram nos muros da rua da minha casa: ‘a Nana é a menina mais linda da escola.’ Levei a maior surra do meu pai por conta desse machismo impregnado que tudo é culpa da mulher. Você é culpada e vilanizada por ter nascido com essa aparência. Car$%&ho, o quê que eu fiz? Eu estava dormindo. Fui forçada pelo meu pai a ir na casa da vizinha e lavar o muro.

Quando meu pai descobriu que eu estava grávida, ele me bateu no meio da rua. Ele socava a minha barriga. Porque tudo sempre é culpa da mulher. Se a culpa é minha por que que nunca ninguém me explicou que o pênis entra na vagina? Por que que nunca ninguém me explicou que existe uma secreção que sai do pênis que faz você engravidar? Agora é culpa minha que eu não sei de nada e que não sabia que aquilo era violência? A única coisa que eu sabia é que era desconfortável, que doía, que eu não gostava, que eu falava não e ninguém parava.

Conto essa história ciente que sou mais uma em bilhões. E isso que tem que parar, a gente tem que perder a vergonha de ter sido vítima. A vítima não tem culpa. Eu não tenho culpa. Mas a gente sofre a violência várias vezes.

A minha maior dor foi no nascimento da minha segunda filha. Estava decidido entre eu, meu marido e minha ginecologista que eu faria uma laqueadura durante a cesariana. No entanto, meu ex-marido esperou eu ser anestesiada para entrar na sala e proibir o procedimento. A médica, com os olhos cheios d’água, disse que, por lei, como eu estava inconsciente, ele respondia pelo meu corpo. Chorei o parto inteiro. Ele me roubou o sorriso de ver minha filha nascer.

Consegui me separar quando ele viajou. Um amigo, o Renato, me buscou imediatamente. Minha família não aceitava mulheres separadas; meu pai dizia que eu era uma vergonha. Fugi para o Rio de Janeiro para trabalhar como recepcionista em uma feira. O que seriam quatro dias viraram meses, e logo me tornei modelo e capa de revista. Trabalhei no Domingão do Faustão, fiz Playboy e conquistei minha independência.

Durante dez anos após o divórcio, meu ex-marido me processou dez vezes, pedindo até pensão alimentícia por eu ser famosa e rica. Ele nunca pagou um centavo para as filhas e acabou fugindo do país para não ser preso. Hoje, minhas filhas moram nos Estados Unidos, são casadas e adultas. Meu pai faleceu no ano passado. O que eu digo para as mulheres é que a informação é a única saída. Precisamos ensinar as crianças sobre a privacidade do corpo e quebrar o tabu de falar sobre sexo e limites. Viver em cativeiro, sem ser dona do próprio corpo, é a pior monstruosidade que existe. Minha paz de espírito hoje vale muito. Se um relacionamento não for para multiplicar minha felicidade, eu prefiro a minha solidão e a minha liberdade”.

Fonte Revista Quem