Foto: Rocco Spaziani/Getty Images
Ele foi entronado como ícone da era disco com “Os embalos de sábado à noite” (1977), de John Badham. Nos anos 1980, sua carreira entrou em declínio, para então ser resgatada por Quentin Tarantino em “Pulp fiction” (1994), antes de se perder novamente em uma sequência de vilões em produções de gosto duvidoso. Apesar dos altos e baixos profissionais e das tragédias pessoais, John Travolta nunca perdeu a ginga nem deixou de dar a volta por cima, confirmando-se como lenda viva de Hollywood. Foi com essa disposição que o ator americano, de 72 anos completados em fevereiro, esteve no Festival de Cannes, na semana passada, para receber uma Palma de Ouro Honorária e lançar “Aventuras nas alturas”, seu primeiro trabalho como diretor de cinema.
O filme, que chega à grade da Apple TV na próxima sexta, dia 29, é inspirado no livro “Propeller one-way night coach: A fable for all ages” (1997), que Travolta escreveu como um presente para o seu primeiro filho, Jett, que sofria de epilepsia desde a infância e faleceu em 2009, aos 16 anos. A trama acompanha o primeiro voo de um menino de 8 anos apaixonado por aviões — como o próprio ator, que tem brevê de piloto e viaja pelo mundo em seu próprio jatinho — junto da mãe, uma atriz madura, em uma viagem a Hollywood. A história é ambientada em 1962, durante a era de ouro dos serviços de bordo, e está repleta de standards musicais da época, incluindo três clássicos da bossa nova criados por Tom Jobim: “Corcovado”, “Samba de uma nota só” e “Garota de Ipanema”. Nos créditos da produção, Travolta, que se revela uma apaixonado por música brasileira, dedica o filme aos pais, irmãos e filhos e a sua esposa Kelly Preston, que morreu de câncer de mama em 2020. “Eles são meu modelo, minha inspiração”, disse o ator, fã do Brasil e, em especial, do Rio, local escolhido para passar o aniversário de 70 anos. Confira os melhores trechos da conversa:
Por que escolheu o Rio para celebrar o aniversário redondo?
Porque a música brasileira sempre viveu dentro de mim. E é por isso que você ouve três canções (de Tom Jobim) no filme. E eu queria mais músicas brasileiras na trilha sonora. Estava especialmente interessado em “Mas que nada” (do Sérgio Mendes), mas meus produtores não conseguiram negociá-la com os detentores dos direitos autorais.
O que pode parecer estranho, vindo de alguém conhecido como símbolo da era disco…
Mas há algo sobre a música brasileira que está no meu DNA, não consigo explicar: me inspira a dançar, a me mover. A bossa nova se tornou uma febre mundial quando eu era pequeno. De repente, aquelas canções que eu tinha ouvido em filmes como “Orfeu negro” (1959), e que ninguém conhecia, viraram um fenômeno global, e assim permaneceram desde então. São músicas que não envelhecem, nunca. Eu já estive no Brasil umas 18 vezes, seja para promover filmes, como “Os embalos de sábado à noite” (1978) e “Um tiro na noite” (1981), ou para promover marcas de relógios e bebidas. Eu ia superanimado e, sempre que podia, trazia minha mulher e os meus filhos junto comigo, porque costumo viajar em meu próprio avião.
Você escreveu o livro que inspirou “Aventuras nas alturas” como um presente para o seu primeiro filho. A quem dedica O filme?
Dedico à Kelly, aos meus filhos Jett, Ella, que tem um pequeno papel, e ao Ben, e a meus irmãos, à minha mãe e ao meu pai, porque eles são o meu rascunho. E eu usei alguns deles de certa forma no filme, porque todos combinavam com os personagens: “Ah, a Annie poderia fazia isso, Molly e Tommy aquilo, Ellen poderia ser a avó do protagonista, no início, meu irmão Joey poderia ser o repórter que aparece no final”. Todos se encaixavam nos papéis. Foi uma forma de reconhecer o valor da minha família.
Sua vida profissional e privada tem sido marcada por grandes sucessos, mas também por golpes dolorosos. Onde encontra forças para não desanimar diante das perdas?
Nossa família pertence a Cientologia, uma religião que nos conforta. E para mim funciona, sabe? Todas as adversidades que enfrentei foram resolvidas nesse meu grupo religioso, e é por isso que eu ainda estou aqui. Eu sou como aquele menino do filme, que vê o copo meio cheio, nunca meio vazio.
E, como seu pequeno alter ego no filme, você ainda odeia frango à cordon bleu?
Não, eu adoro! Aquilo foi coisa de minha infância (risos).
