Capa de “John & Paul: Uma história de amor em canções”
A parceria, a amizade e as trajetórias de Lennon e McCartney são revisitadas pelo jornalista e escritor britânico Ian Leslie em “John & Paul: Uma história de amor em canções”, eleito um dos melhores livros de 2025 por veículos como The Economist e Financial Times. O autor reconstrói a história da relação de admiração e rivalidade, interdependência artística e emocional, que se refletiu na musicalidade de ambos.
Cada capítulo tem o título de uma canção não somente dos Beatles, mas também da carreira solo dos dois e, em menor quantidade, de outros artistas que influenciaram a dupla. Da formação da banda em Liverpool, na Inglaterra, ao período pós-Beatles, Leslie usa a época da composição de cada faixa para ilustrar a relação entre Lennon e McCartney bem como o processo criativo das letras, dos arranjos e do conceito musical.
Da parceria entre os dois líderes criativos dos Beatles nasceram 159 das 184 músicas gravadas pela banda. “Não tenho a menor dúvida de que os maiores talentos daquela era eram Paul e John. George [Harrison], Ringo [Starr] e eu éramos talentos secundários”, disse o produtor George Martin .
Leslie procura ir além da narrativa dominante que opõe Lennon (o gênio atormentado) a McCartney (o artesão careta). Com novas evidências (gravações de estúdio, demos e o documentário “Get Back”, de 2021), o autor revela uma parceria mais colaborativa e mostra como cada canção funciona como um registro da relação entre os dois.
De acordo com Leslie, Lennon e McCartney funcionavam como polos complementares. Sensível, introspectivo e frequentemente autodestrutivo, Lennon encontrava em McCartney um contraponto mais racional. O autor argumenta que essa complementaridade não foi apenas essencial para os Beatles acontecerem, mas também para cada um alcançar o melhor de si.
Segundo Leslie, Lennon se valia de McCartney para acalmar a própria mente, e um membro da equipe da banda é testemunha disso: “John precisa dos outros para tirá-lo de sua negatividade. Paul é quem melhor faz isso”, relata. Já a esposa de outro membro declarou que “Paul e John sempre dão um jeito de se isolar dos outros. Quando estão ‘sintonizados’, [o guitarrista] George e [o baterista] Ringo meio que se afastam”, diz a fonte.
A canção “She Loves You”, cujo “yeah, yeah, yeah” (do refrão) inspirou o termo “iê-iê-iê” para o rock brasileiro nos anos 1960, soa como uma conversa entre amigos. Nela o eu lírico tenta convencer um rapaz orgulhoso a valorizar o amor que tem. Essa situação reapareceria anos depois quando McCartney atuou como conselheiro de Lennon e Yoko Ono durante uma crise no casamento. O episódio reforça a ideia de que Ono não foi a responsável pelo fim dos Beatles.
Leslie descreve o vínculo entre Lennon e McCartney como uma “história de amor” não no sentido romântico, mas como uma relação de dependência afetiva que moldou suas identidades artísticas. Em 1967, Lennon disse que “conversar é a forma mais lenta de comunicação” e que a música era melhor. Para eles, a canção era um modo de processar dores e alegrias intensas. Leslie lê esse diálogo musical como o motor da parceria e mostra como a rivalidade ora tensa, ora sadia, funcionava como impulso criativo.
Mesmo seis décadas depois, os Beatles continuam a permear a cultura pop e são uma referência para o trabalho criativo. Algumas provas desse legado são a quadrilogia de filmes sobre a banda, do diretor Sam Mendes, prevista para 2028; o filme de ficção “Yesterday”, de 2019; a declaração do vocalista Ozzy Osbourne, um dos pais do heavy metal, segundo o qual o mundo era em preto e branco antes dos Beatles e, depois, se tornou colorido.
Até hoje a dupla ainda é colocada à frente de outras, como Freddie Mercury e Brian May (Queen), Mick Jagger e Keith Richards (Rolling Stones), Elton John e Bernie Taupin, Jimmy Page e Robert Plant (Led Zeppelin).
McCartney trabalharia com outros nomes de peso ao longo da carreira — dos duetos com Michael Jackson em “The Girl Is Mine”, faixa de “Thriller”, o álbum mais vendido da história, e em “Say Say Say”, às participações nos dois discos mais recentes dos Rolling Stones. Em breve lançará também um disco com Ringo Starr nos vocais. Ainda assim, a parceria com Lennon permanece como a mais influente da música pop.
John & Paul: Uma história de amor em canções – Ian Leslie. Trad.: Alexandre Boide. HarperCollins Brasil. 400 págs., R$ 99,90.
