O Halloween no varejo
O crescimento das celebrações de Halloween no Brasil, consolida um mercado de consumo em expansão e expõe a dinâmica de adaptação cultural do país. Impulsionado originalmente por escolas de idiomas e pela indústria do entretenimento, o evento movimenta setores do varejo, serviços e decoração, ao mesmo tempo em que divide espaço com o Dia do Saci, instituído por lei federal em 2003 para valorização do folclore nacional.
Em 2025, a Associação Brasileira de Artigos para Festas (ABRAFEST) registrou um aumento de 14% no faturamento de artigos de decoração e fantasias em outubro em comparação ao mesmo período de 2024. Para 2026, pesquisas indicam a consolidação da data no território nacional e no ambiente escolar, com projeções do setor produtivo apontando alta adicional de 12% nas vendas, puxada por eventos em condomínios residenciais, escolas regulares e estabelecimentos comerciais.
“A adesão à data no país não ocorre de forma passiva, mas sim por meio de um processo gradual de apropriação e modificação das práticas originais. A difusão do Halloween no Brasil começou de forma restrita, ligada ao ensino de língua inglesa. A partir dos anos 2000, com o suporte da mídia, do cinema e das redes sociais, a data expandiu-se para o comércio e para o entretenimento. No entanto, a prática brasileira difere do modelo tradicional norte-americano: o foco principal migrou do pedido de doces nas ruas para a realização de festas temáticas, bailes e eventos sociais indoor”, afirma Verônica Karina Ipólito, professora do curso de História da EAD UniCesumar.
“Carnavalização” e apropriação do modelo estrangeiro
A análise histórica e sociológica do fenômeno indica que a celebração norte-americana passou por um filtro de costumes locais. Em vez de reproduzir estritamente o ritual do trick or treat (“gostosuras ou travessuras”), o público brasileiro adaptou a comemoração aos seus próprios padrões de sociabilidade.
“Não se trata de uma importação literal, mas de um deslocamento cultural. O Halloween brasileiro incorpora hábitos, comidas e formas de festejar típicas do nosso cotidiano. Elementos como abóboras e bruxas permanecem no imaginário, mas a dinâmica de celebração aproxima-se de um ‘carnaval fora de época’, o conceito de ‘carnavalização’, focado na diversão e na convivência”, destaca a docente da UniCesumar.
Circulação global e a função pedagógica do Dia do Saci
A coexistência entre o Halloween e o Dia do Saci em 31 de outubro reflete diferentes usos da data no ambiente educacional e no mercado. A instituição do Dia do Saci pelo Projeto de Lei nº 2.762/2003 buscou dar visibilidade a personagens do folclore nacional, como o Saci, Iara, Curupira e Cuca.
Sob a perspectiva antropológica, a circulação de festas globais, a exemplo do Halloween, da Black Friday e do próprio Natal com a figura do Papai Noel, não resulta obrigatoriamente no apagamento das tradições locais. A dinâmica depende da capacidade das instituições de promover o conhecimento crítico e a preservação do patrimônio imaterial.
“Halloween e Dia do Saci ocupam papéis distintos. Enquanto a festa de origem celta e popularizada pelos Estados Unidos dialoga com a cultura pop, o entretenimento e o consumo, o Dia do Saci atua na preservação da memória e da tradição oral. No ambiente escolar, ambas as datas podem coexistir pedagogicamente. O Halloween permite debater globalização e diversidade cultural, enquanto o Dia do Saci fortalece a identidade e o repertório folclórico brasileiro. O desafio educativo é garantir que a incorporação de referências externas não ocorra em prejuízo do conhecimento da nossa própria história”, conclui Ipólito.



