A banda irlandesa retorna ao Brasil após 10 anos, além de trazer o álbum inédito “Carnaval de Luz” para os palcos. Com o lançamento marcado para 13 de novembro de 2026, a banda retorna a São Paulo com 4 shows no MorumBis, nos dias 10, 12, 14 e 16 de março de 2027. Em uma conversa com uma emissora de rádio paulista, The Edge contou que suas experiências no carnaval brasileiro influenciariam as novas composições.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2024/B/Z/6xpF7UQfWBrnFOlIuBcA/109241397-the-edge-performs-with-the-band-u2-at-the-bok-center-in-tulsa-okla-on-may-2-2018-the-band.jpg)
“Há muito tempo somos fascinados não apenas pela expressão do Carnaval, mas pelo próprio conceito da festa. Essa ideia de que, dentro de um contexto religioso, você pode celebrar e aproveitar os prazeres da vida e do corpo, por assim dizer. Na Irlanda, nós sempre nos sentimos meio injustiçados, porque, quando chegava o início da Quaresma, tudo o que recebíamos era um monte de panquecas. Aquela era a nossa versão do Carnaval!”
Uma das lembranças mais marcantes dos irlandeses no nosso carnaval foi em 2006, quando Bono cantou “Vertigou” em cima de um trio elétrico com a Ivete Sangalo. Na ocasião, Bono, The Edge e Larry Mullen Jr. estiveram na capital baiana poucos dias depois dos shows da turnê Vertigo em São Paulo. Durante a entrevista, Edge contou que aquela experiência foi organizada com a ajuda de pessoas que conheciam bem a cultura brasileira.
“Estávamos na Bahia com Quincy Jones e Gilberto Gil, e eles disseram: ‘Vamos mostrar o Carnaval para vocês’. Assistimos a tudo de uma varanda, que era um lugar incrível para ver os trios passando. A música era maravilhosa.”
O guitarrista também se lembrou do momento em que Bono decidiu participar da festa.
“Então aconteceu aquele momento bonito em que fomos convidados a contribuir. Bono disse: ‘Me dá o microfone’. Jogaram o microfone para ele, Bono pegou e nós cantamos juntos. Foi muito divertido, uma experiência realmente fantástica.”
O episódio teve ainda uma apresentação improvisada de Bono cantando “No Woman, No Cry”, de Bob Marley, registrada na época pelo próprio site oficial do U2.
Mas o interesse da banda pelo carnaval brasileiro começou antes mesmo desse episódio. Em 1998, durante a turnê PopMart, eles convidaram integrantes da escola de samba Acadêmicos do Salgueiro para subir no palco durante o show no Rio de Janeiro. A apresentação aconteceu em 27 de janeiro, no Autódromo de Jacarepaguá, e marcou a estreia do U2 em território brasileiro.
Durante a música “Desire”, os ritmistas do Salgueiro dividiram o palco com Bono, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen Jr., levando a percussão do samba para dentro de um espetáculo de rock que já era conhecido pela grandiosidade visual. Mais de 28 anos depois, The Edge ainda se recorda daquela colaboração.
“Estamos explorando e nos encantando com o Carnaval brasileiro há muito tempo. Antes mesmo daquela experiência na Bahia, durante a turnê PopMart, colaboramos com uma escola de samba no Rio de Janeiro e a levamos ao palco para tocar conosco”.
Como o Carnaval se transformou no conceito do novo álbum
O título Carnaval de Luz, escrito em português, representa uma ideia que a banda vem desenvolvendo há bastante tempo.
The Edge revelou que a possibilidade de trabalhar com o conceito de Carnaval já havia surgido décadas atrás, possivelmente durante o período de criação de Achtung Baby, lançado em 1991.
“Quando começamos a pensar nesta turnê, voltamos a uma ideia que tivemos algum tempo atrás. Acho que talvez tenha surgido ainda na época de Achtung Baby. Era a ideia de Carnaval. Ficamos fascinados com a possibilidade de reunir dois lados diferentes do U2: essa busca espiritual e a celebração.”
O músico também destacou que as experiências da banda em Portugal contribuíram para sua familiaridade com a língua e com a cultura lusófona.
Na visão de The Edge, o novo trabalho procura transmitir uma mensagem de resistência por meio da alegria, mesmo diante de um cenário mundial marcado por conflitos e notícias difíceis.
“Achamos que este é um momento muito importante para lembrar às pessoas que existe muita coisa pela qual devemos ser gratos. Há muita coisa para celebrar.”
Ele explicou que a proposta não é ignorar os problemas do mundo, mas encontrar uma maneira de enfrentá-los.
“Por mais que estejamos lidando todos os dias com notícias muito difíceis, vindas de todos os cantos do mundo, é importante não nos entregarmos à tristeza, à depressão ou ao desânimo. É importante desafiar isso.”
Para o guitarrista, a celebração pode funcionar como uma resposta a esse sentimento.
“A melhor maneira de desafiar notícias ruins é reconhecê-las, mas depois celebrar as coisas boas. Essa é a nossa ambição para a turnê: que ela seja positiva diante de tudo aquilo com que estamos lidando.”
Junto com o novo álbum, a banda lançou dois EPs, “Days of Ash” e “Easter Lily”, e diferente do calendário católico, eles apostaram em inverter essas datas comemorativas que viriam após o carnaval.
“Foi quase como se o primeiro EP tivesse se apresentado como algo que precisávamos lançar imediatamente, porque as músicas eram muito atuais, estavam muito conectadas àquele momento. Então, nós pensamos se deveríamos lançar apenas uma música. Depois pensamos: não, vamos lançar todas essas músicas juntas. E então veio o segundo EP, que, no calendário eclesiástico, vem depois. Você tem a Quaresma e depois a Páscoa. Então simplesmente dissemos: “Vamos lançar esse segundo EP”. E, dessa forma, vamos efetivamente começar a contar a nossa história pelo final e depois voltar ao começo. Então o álbum vai chegar no fim dessa sequência, culminando a história, mas, na nossa cabeça, esse é o começo”.
Sobre o show no Brasil
Após a banda esgotar 3 shows em minutos, U2 anunciou uma quarta data em São Paulo. Edge não pode negar que seus fãs brasileiros são diferentes.
“Cada país é diferente, mas o Brasil é realmente muito especial. O público é muito apaixonado. As pessoas realmente vivem a música e a celebração. Isso é algo muito natural para vocês. Nós costumamos dizer que a Irlanda tem um espírito muito latino, mesmo estando no norte da Europa. Então, existe uma parte dos irlandeses que aspira a ser brasileira. Talvez nunca consigamos chegar lá. Certamente não vamos conseguir acompanhar vocês na dança, e não vamos conseguir acompanhar vocês em muitas outras coisas, mas vamos fazer o nosso melhor!”
Segundo a Rolling Stones Itália, a banda estaria discutindo em como seria o melhor setlist para o show. Enquanto Edge queria mais músicas do novo álbum, Bono queria apostar nos clássicos antigos.
“Estamos todos tentando encontrar aquele equilíbrio perfeito entre as músicas antigas e as novas. E, em diferentes momentos, eu penso: bom, nós acabamos de lançar dois trabalhos e, na verdade, até novembro, teremos lançado efetivamente 24 músicas nesse período de um ano. Então, temos uma quantidade enorme de material para escolher. Mas também sabemos que as pessoas vão aos shows para ouvir as grandes músicas do U2. Por isso, com certeza vamos garantir que nenhum daqueles clássicos fique de fora. Então, vai ser difícil encontrar esse equilíbrio. Mas, no fim das contas, as músicas é que mandam. São elas que nos dizem o que fazer. Vamos ouvir e sentir quais são as músicas certas para tocar.”
Entre as novidades de Carnaval de Luz e os sucessos que marcaram os 50 anos de carreira do U2, a banda prepara mais um reencontro com o público brasileiro. A definição do repertório ainda está em aberto, mas uma coisa The Edge já deixou clara durante a entrevista: os grandes clássicos não ficarão de fora das apresentações em São Paulo.


