Gabriel Contente transforma o luto pela mãe em curta-metragem sobre memória e afeto

Gabriel Contente


O ator, dramaturgo e diretor Gabriel Contente vai exibir seu curta-metragem Aqui Comem os Pombos, que dirige ao lado de Bruna Diacoyannis, no evento organizado pela Jones Pictures, no dia 7 de novembro, no Cine Íris, no Centro do Rio.

No filme ele transforma a experiência do luto pela morte da mãe, em junho de 2025, em uma reflexão poética sobre a ausência, a memória e a permanência dos vínculos afetivos.

O evento vai exibir 22 curtas-metragens brasileiros e Aqui Comem os Pombos será exibido na sessão das 18h25 às 20h, que mostrará seis curtas que abordam experiências internas, identidade e expressão, com ingressos a R$ 15.

Amigos e parceiros artísticos desde os tempos da Casa das Artes de Laranjeiras (CAL), Gabriel e Bruna unem seus olhares na direção de uma obra que parte de uma vivência íntima para investigar as possibilidades da linguagem cinematográfica. A produção também representa um reencontro do ator com suas origens artísticas, ao contar com a participação de Letícia Canavalle, sua primeira professora de teatro, a quem considera uma verdadeira mãe na arte.

Em Aqui Comem os Pombos, Gabriel interpreta um jovem que contempla a paisagem de uma praia enquanto revisita pensamentos, lembranças e sentimentos relacionados à ausência de alguém que marcou profundamente sua vida. Entre o mar, o céu, a areia e pequenos acontecimentos da natureza, o personagem atravessa um dia aparentemente comum, revelando as camadas de um universo interior atravessado pela saudade. O ator contracena com Letícia Canavalle.

Uma história pessoal transformada em cinema

A inspiração para o curta surgiu da experiência de Gabriel ao acompanhar a mãe durante uma doença neurodegenerativa, que comprometeu progressivamente suas capacidades cognitivas e sua interação com o mundo. A convivência com essa transformação despertou no artista uma reflexão sobre as diferentes formas de perda, inclusive aquela vivenciada quando alguém ainda está presente fisicamente, mas tem sua relação com o mundo profundamente modificada.

“A concepção deste curta-metragem veio do desejo pessoal de homenagear minha mãe, a pessoa mais importante da minha vida”, conta o ator. Ao recordar o período em que acompanhou a doença materna, ele destaca a complexidade desse processo: “Muito pior do que o luto da morte é o luto por uma pessoa que ainda está viva”.

A Praia do Leme, no Rio de Janeiro, cenário de memórias afetivas compartilhadas entre mãe e filho, tornou-se o espaço escolhido para traduzir esse sentimento em imagens. Foi ali que Gabriel observou uma cena cotidiana que daria origem ao título do filme.

“Pela primeira vez, observei a linha das ondas e notei que os pombos comiam, ali mesmo, as coisinhas deixadas pelo mar”, relembra. A imagem dos pássaros procurando alimento na areia ganhou um significado simbólico, evocando a fragilidade da existência, a sobrevivência e a deterioração.

A narrativa acompanha o fluxo de pensamentos do protagonista e aposta na contemplação e na fragmentação das lembranças para expressar sentimentos que nem sempre encontram tradução em palavras. Em vez de seguir uma abordagem estritamente realista, o curta constrói uma experiência sensorial sobre a passagem do tempo, a saudade e os vestígios deixados por quem amamos.

Mais do que um relato autobiográfico, Aqui Comem os Pombos propõe uma reflexão universal sobre a ausência e a capacidade da arte de elaborar experiências difíceis de nomear. Ao transformar uma história pessoal em linguagem cinematográfica, Gabriel convida o público a reconhecer, nos detalhes da natureza e nas memórias de uma paisagem, a permanência de relações que continuam a nos acompanhar mesmo depois da morte.

Da televisão ao cinema, do teatro à direção

Formado em teatro pela Casa das Artes de Laranjeiras (CAL) e graduado em Licenciatura em Artes Cênicas pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), Gabriel Contente construiu uma trajetória que transita entre televisão, cinema, teatro e dramaturgia.

Como dramaturgo, estreou em 2017 com a peça Natal e já assina outras quatro dramaturgias. Na televisão, participou das novelas Malhação: Vidas Brasileiras, Totalmente Demais, Bom Sucesso e Vai na Fé, da TV Globo.

No cinema, protagonizou Intimidade entre Estranhos, dirigido por Zé Alvarenga, e integrou o elenco de Lulli, da Netflix; Um Ano Inesquecível: Primavera, do Prime Video; e Nosso Tudo Bem, no YouTube.

Nos palcos, interpretou Harry Potter no musical A Very Potter Musical, dirigido por Júlio Ângelo, e participou de montagens sob a direção de profissionais como Bruce Gomlevsky, Eber Inácio e Anderson Aníbal. Seu trabalho teatral mais recente foi O Legado, de Renato Farias, com a Companhia de Teatro Íntimo, cuja estreia aconteceu no Sesc Copacabana, no Rio de Janeiro.

Além de se dedicar à direção de Aqui Comem os Pombos, Gabriel está gravando um documentário sobre o cabaré no século XXI, tendo como ponto de partida a popularização do Buraco da Lacraia. O ator também integra o elenco de Guido, filme sobre a vida de Guido Schäffer, surfista que se preparava para se tornar padre quando morreu no mar. A produção tem lançamento previsto para 2027, na Netflix.

SERVIÇO:

  • Programação: Exibição do curta-metragem Aqui Comem os Pombos e mais cinco curtas que abordam experiências internas, identidade e expressão.
  • Direção: Gabriel Contente e Bruna Diacoyannis
  • Data: 7 de novembro
  • Horário: Das 18h25 às 20h
  • Local: Cine Íris
  • Endereço: Rua da Carioca, 49 – Centro/RJ
  • Ingresso: R$ 15