A tragédia provocada pelas chuvas intensas na Zona da Mata mineira deixou 72 mortos em Juiz de Fora e Ubá, com uma pessoa ainda desaparecida em Ubá, segundo balanço divulgado em coletiva pela Polícia Civil de Minas Gerais. Do total, 65 mortes são de Juiz de Fora e 7 de Ubá. A Prefeitura de Juiz de Fora estima mais de 8,5 mil pessoas desalojadas ou desabrigadas, e a Defesa Civil aponta que mais de 400 pessoas, em Ubá, perderam ou estão sem acesso à própria casa. O Governo Federal reconheceu estado de calamidade pública nos municípios para acelerar ações de assistência e restabelecimento de serviços.
Na gravidez e no puerpério, mulheres podem enfrentar ansiedade, sintomas depressivos e estresse pós-traumático, e esses quadros tendem a piorar quando há perda, deslocamento e insegurança. A psicologia perinatal ajuda a identificar sinais de alerta, acolher e encaminhar para tratamento quando necessário. A Lei 14.721/2023 prevê assistência psicológica no SUS (Sistema Único de Saúde) a gestantes, parturientes e puérperas, após avaliação no pré-natal, mas em tragédias a procura pode ultrapassar a capacidade de atendimento.
Crianças e adolescentes estão entre os mais vulneráveis em tragédias climáticas. Eles podem viver deslocamento, separação de familiares e interrupção de escola e serviços de saúde. Segundo o UNICEF, quando as necessidades não são atendidas repetidamente e o estresse se prolonga sem cuidado e suporte adequados, os hormônios do estresse permanecem por mais tempo no corpo, o que pode afetar o desenvolvimento emocional e a aprendizagem.
A psicóloga perinatal Rafaela Schiavo, fundadora do Instituto MaterOnline, alerta que o estresse na gravidez pode ser ainda mais intenso em situações de desastre.
“Mulheres grávidas que vivenciaram este trauma provavelmente tiveram um aumento do hormônio cortisol, o que pode levar a partos prematuros. O estresse crônico também pode afetar a transferência de nutrientes, comprometendo o desenvolvimento do bebê. Ao cuidar da saúde mental das gestantes, também cuidamos da saúde mental da criança”.
Ela afirma que crianças pequenas, mesmo as que ainda não falam, percebem a tensão ao redor e podem sentir os efeitos do estresse. “Até os 3 anos, a criança capta o pânico e a insegurança dos adultos, mesmo sem entender o que aconteceu. Isso pode afetar o desenvolvimento emocional”, diz.
A seguir, a especialista reúne orientações para gestantes e para adultos que cuidam de crianças durante e após as enchentes:
Para gestantes
- Buscar apoio profissional: Procurar um profissional de saúde mental para conversar sobre as angústias deste momento é fundamental.
- Participar de grupos de apoio: Envolver-se em grupos com outras gestantes para compartilhar experiências e emoções pode aliviar a tensão.
- Continuar o pré-natal: Manter o acompanhamento pré-natal para garantir a saúde da mãe e do bebê é essencial.
Para adultos que cuidam de crianças
- Atividades lúdicas: Brincar com as crianças e, se possível, utilizar uma brinquedoteca com apoio de psicólogos ou pedagogos. A brincadeira ajuda a criança a lidar com o estresse.
- Comunicação transparente: Explicar, de forma simples e clara, o que está acontecendo. O não dito pode ser prejudicial, pois a criança percebe que algo está errado.
Para orientação e apoio emocional neste momento, a recomendação é buscar a rede do SUS no território, como UBS e CAPS, além de acompanhar os canais oficiais com informações de abrigos e serviços. Em Ubá, a prefeitura informou que mantém equipe de saúde com técnico de enfermagem, enfermeiro e médico nos abrigos públicos. Em Juiz de Fora, há pontos de acolhimento com suporte social e oferta de apoio psicológico, e escolas municipais foram indicadas como locais de abrigo para famílias em áreas de risco. Para materiais de utilidade pública sobre primeiros cuidados psicológicos, crianças em abrigos e resposta em desastres, o Ministério da Saúde reúne documentos no Especial Desastres Naturais da UNA-SUS.
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Sobre Rafaela SchiavoProfª-Dra.
Rafaela de Almeida Schiavo é psicóloga perinatal e fundadora do Instituto MaterOnline. Desde sua formação inicial, dedica-se à saúde mental materna, sendo autora de centenas de trabalhos científicos com o objetivo de reduzir as elevadas taxas de alterações emocionais maternas no Brasil.Possui graduação em Licenciatura Plena em Psicologia e em Psicologia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. Além disso, concluiu seu mestrado em Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem e doutorado em Saúde Coletiva pela mesma instituição. Realizou seu pós-doutorado na UNESP/Bauru, integrando o Programa de Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem. Tem experiência na área de Psicologia, com ênfase em Desenvolvimento Humano, atuando principalmente nos seguintes temas: Desenvolvimento pré-natal e na primeira infância; Psicologia Perinatal e da Parentalidade.
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