O avanço das chamadas canetas emagrecedoras, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, mudou a forma de tratar a obesidade e também o perfil de quem procura um cirurgião plástico. Nos consultórios, cresce o número de pessoas que já alcançaram uma perda significativa de peso, mas continuam insatisfeitas com a própria aparência. Em muitos casos, o que mais incomoda já não é apenas o excesso de pele, mas a dificuldade de se reconhecer no novo corpo.

Marco Dallegrave, médico formado pela Faculdade Evangélica de Medicina do Paraná, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) e pós-graduado em Psiquiatria, afirma que a rapidez da transformação física nem sempre é acompanhada pela adaptação emocional. Segundo ele, esse descompasso passou a fazer parte da rotina dos consultórios e influencia diretamente a decisão sobre quando operar. “Hoje, uma parte importante da consulta deixou de ser sobre técnica cirúrgica. O que mais fazemos é ajudar a pessoa a entender se realmente precisa operar ou se ainda está vivendo o processo de adaptação à nova imagem corporal”.
A discussão ganhou ainda mais relevância com a expansão dos agonistas de GLP-1. Desde junho de 2025, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) passou a exigir retenção de receita para esses medicamentos, reforçando a importância do acompanhamento médico durante todo o tratamento.
Emagrecer nem sempre significa aceitar o novo corpo
Perder peso costuma ser encarado como o fim de uma jornada. Para muitas pessoas, porém, essa etapa marca apenas o início de uma nova relação com a própria imagem. “O corpo muda em poucos meses, mas a forma como a pessoa se enxerga pode levar muito mais tempo para acompanhar essa transformação. Não é raro encontrar pacientes que perderam dezenas de quilos e ainda se percebem como antes, enquanto outros acreditam que a cirurgia resolverá inseguranças construídas ao longo de muitos anos”.
Segundo Dallegrave, estabilidade do peso, qualidade da pele, estado nutricional, ganho de massa muscular e equilíbrio emocional passaram a ser critérios tão importantes quanto a quantidade de quilos eliminados na hora de indicar um procedimento.
Como saber se ainda não é o momento da cirurgia?
Nem toda pessoa que emagrece está pronta para operar. De acordo com o especialista, alguns sinais indicam que vale esperar um pouco mais antes de tomar essa decisão.
- O peso ainda oscila com frequência.
- A rotina de alimentação e atividade física ainda está em adaptação.
- Há perda importante de massa muscular ou deficiências nutricionais.
- A expectativa é de que a cirurgia resolva problemas de autoestima.
- Ainda existe dificuldade para reconhecer ou aceitar a própria imagem.
“Quando existe instabilidade física ou emocional, esperar costuma ser a decisão mais segura. Esse intervalo melhora o planejamento, reduz riscos e permite entender quais mudanças realmente permaneceram depois da perda de peso”.
Nem toda insatisfação é excesso de pele
Outro ponto observado nos consultórios é que nem sempre o desconforto está relacionado apenas às mudanças físicas. A comparação constante nas redes sociais e a expectativa de alcançar um corpo considerado perfeito podem aumentar a frustração, mesmo quando o emagrecimento foi bem-sucedido.
“Existe uma ideia de que emagrecer termina obrigatoriamente em uma cirurgia plástica e que, depois dela, todos os incômodos com a aparência desaparecerão. Mas cada pessoa vive uma história diferente. Quando expectativa e realidade não caminham juntas, nem mesmo um resultado técnico bem executado é suficiente para gerar satisfação”.
Para o médico, compreender essa relação com a própria imagem tornou-se parte fundamental da avaliação pré-operatória. Em alguns casos, a melhor indicação não é marcar uma cirurgia imediatamente, mas permitir que o paciente tenha tempo para se adaptar às mudanças e construir expectativas mais realistas.
O que avaliar antes de procurar um cirurgião plástico
Antes de buscar um procedimento após uma grande perda de peso, Dallegrave orienta que o paciente observe alguns fatores que ajudam a tornar a decisão mais segura. Entre eles estão manter o peso estável por alguns meses, realizar uma avaliação clínica e nutricional completa, recuperar ou fortalecer a massa muscular, conversar de forma transparente sobre as expectativas em relação ao resultado e escolher um profissional que considere não apenas as condições físicas, mas também os aspectos emocionais envolvidos no tratamento.
“A cirurgia plástica pode corrigir excesso de pele, melhorar o contorno corporal e devolver conforto físico. Mas ela não substitui o processo de reconstrução da autoestima. Os melhores resultados acontecem quando saúde, equilíbrio emocional e expectativas realistas caminham juntos”.
Sobre Marco Dallegrave
Dr. Marco Dallegrave é médico formado pela Faculdade Evangélica de Medicina do Paraná (FEMPAR), com residência em Cirurgia Geral pela Santa Casa de Curitiba e residência em Cirurgia Plástica pelo Hospital Universitário Cajuru, em Curitiba (PR). Também possui pós-graduação em Psiquiatria pelo CENBRAP, formação que complementa sua visão sobre os aspectos emocionais e psicológicos envolvidos na relação dos pacientes com a própria imagem.
Membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), atua há 21 anos na especialidade e já realizou mais de 5 mil cirurgias. Sua prática é voltada à cirurgia plástica estética, com ênfase em procedimentos de contorno corporal, mini lipoaspiração de recuperação rápida e cirurgias das mamas.
Ao longo da carreira, consolidou uma abordagem que alia excelência técnica, segurança e atendimento humanizado. Defende que a cirurgia deve respeitar a individualidade de cada paciente e ser compreendida como parte de um cuidado integral com a saúde e o bem-estar, e não apenas como uma transformação estética.
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Fontes de Pesquisa:
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