Fifa vê conflito de interesses e cria barreira para Copa do Mundo de 2030 na CazéTV

Responsável por romper o monopólio da Globo nas transmissões da Copa do Mundo após duas décadas, a CazéTV pode ficar sem os direitos do Mundial de 2030, a ser disputado na Espanha, em Portugal e no Marrocos.

Globo e CazéTV

Organizadora do torneio de seleções, a Fifa não está vendo com bons olhos o fato de o canal de streaming pertencer a uma empresa (a LiveMode) que, ao mesmo tempo, compra e vende direitos de transmissão e que também compartilha investidores com uma das ligas que atuam no futebol brasileiro, a FFU (Futebol Forte União).

Em conversas durante a Copa nos Estados Unidos, membros da Fifa têm demostrado desconforto com a situação, relatam fontes diretamente envolvidas no assunto.

A entidade máxima do futebol vê um claro conflito de interesses entre detentor (FFU), comprador e vendedor (LiveMode), e exibidor (CazéTV) de direitos esportivos e promete dificultar as negociações para a próxima Copa, já em andamento.

Além disso, há um fator político que pode pesar muito contra a CazéTV: a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) lançou neste ano um projeto para viabilizar uma única liga nacional de futebol a partir de 2030, unindo os clubes hoje representados pela FFU (Corinthians, Fluminense, Internacional, Vasco e mais 31 agremiações) e pela Libra (Liga Brasil, que conta com Flamengo, Palmeiras e São Paulo, entre outros).

Ou seja, existe também um conflito de interesses entre a FFU e a Liga Futebol no Brasil que a CBF encampou. A Fifa, por motivos óbvios, tem um lado nessa disputa: o da CBF, uma de suas filiadas mais importantes.

A CazéTV, a LiveMode e a Futebol Forte União se cruzam por meio da brasileira XP Investimentos e da General Atlantic, empresa norte-americana de capital de risco. Em 2023, a General Atlantic e a XP lideraram um consórcio que investiu R$ 2,6 bilhões para comprar 20% dos direitos comerciais dos clubes da FFU (então LFU, Liga Forte União) por 50 anos.

Seis meses depois, em abril de 2024, a General Atlantic e a XP anunciaram investimentos na LiveMode, que é dona da CazéTV. Os valores não foram revelados, mas a participação seria minoritária. Os principais sócios da LiveMode continuariam sendo Edgar Diniz e Sérgio Lopes, além de Casimiro Miguel. Os investimentos levaram a LiveMode a ampliar sua atuação para o mercado português, em parceria com Cristiano Ronaldo.

A Fifa, segundo as conversas nos Estados Unidos, poderia dificultar a vida da LiveMode ao exibir, por exemplo, que ela assuma apenas um papel, como o de comprador ou exibidor. Ou ao condicionar uma parceria pela Copa de 2030 à saída dos investidores General Atlantic e XP, desvinculando-se da FFU.

Seria uma medida muito dura. A LiveMode teve papel decisivo na montagem da FFU e é sua agência exclusiva, responsável por toda a negociação e a administração dos direitos de transmissão.

A agência se orgulha de ter conduzido “as negociações históricas dos direitos de mídia do Brasileirão para o ciclo 2025-2029, resultando em contratos com Grupo Globo, YouTube/CazéTV, Record e Amazon Prime Video”, o que “gerou um aumento de 110% na receita anual, passando de R$ 800 milhões para R$ 1,7 bilhão por temporada, com projeção de R$ 2,2 bilhões até 2029”.

Como a Copa foi parar na CazéTV?

Todo esse processo foi acompanhado pela Fifa nos últimos anos. A CazéTV virou o que é hoje graças a uma necessidade da entidade máxima do futebol. Em 2020, durante a pandemia do coronavírus, a Globo abriu uma disputa judicial com a Fifa para renegociar os termos do contrato que havia assinado em 2013, pelo qual detinha todos os direitos das Copas até 2030.

Em 2022, a emissora fechou um acordo com a Fifa em que abriu mão da exclusividade no digital. Isso abriu caminho para que a LiveMode e Casimiro Miguel comprassem a Copa do Mundo do Catar por apenas US$ 3 milhões (R$ 15,5 milhões) e a transmitissem em um canal no YouTube, o que se revelou um excelente negócio.

Com o acordo, a Globo reduziu de US$ 90 milhões (R$ 464 milhões) para cerca de US$ 40 milhões (R$ 206 milhões) os desembolsos anuais com os direitos negociados pela entidade. Mas comprou só metade dos jogos da Copa de 2026. Novamente, abriu espaço para a LiveMode, que foi contratada pela Fifa em 2024 para vender todos os jogos.

A LiveMode negociou parte dos direitos (32 jogos) para a N Sports e o SBT. E comprou ela mesma todas as 104 partidas para exibição na CazéTV em território brasileiro. Pela primeira vez, a Globo está tendo um concorrente forte nas transmissões da Copa.

O jogo do Brasil contra o Haiti, na última sexta (19), foi visto durante pelo menos um minuto por 51 milhões de pessoas, somando TV Globo, SporTV e Ge TV. Já a transmissão da CazéTV chegou a ser sintonizada por 37,4 milhões de aparelhos, 16,1 milhões deles simultaneamente no momento de pico.