A Globo
“Não é só a história da TV Globo. É a história da nossa cultura, da nossa política, do nosso jornalismo, do nosso esporte, do nosso talento, dos nossos acertos e claro, dos nossos erros.” Marcos Uchôa, jornalista
O jornalista e escritor Ernesto Rodrigues acaba de colocar o ponto final em uma das empreitadas mais ambiciosas de sua carreira: o projeto A Globo, que levou mais de sete anos para ser concluído, resultando em três livros que, somados, dão mais de duas mil páginas de uma história que se mistura intimamente com a do Brasil. Com o lançamento de A Globo: Metamorfose, terceiro e último volume da trilogia, chega às livrarias a parte final de uma investigação que acompanha a trajetória da principal emissora de televisão do país e, ao fazê-lo, reconstitui também transformações decisivas da vida brasileira, de suas disputas políticas e culturais às mudanças no modo como o país passou a se informar, se entreter e se reconhecer diante da tela.
Se, no primeiro volume, A Globo: Hegemonia, o autor reconstituiu a implantação e a consolidação da emissora entre 1965 e 1984, e, no segundo, A Globo: Concorrência, analisou os anos de redemocratização e de disputa mais intensa por audiência entre 1985 e 1998, Metamorfose se concentra no período de 1999 a 2025, quando a Globo passa a enfrentar a erosão de sua centralidade em um ambiente moldado pelo crescimento das classes C, D e E nos índices de audiência, pelo avanço da TV por assinatura, pela revolução da internet e, mais adiante, pelo surgimento das grandes plataformas de streaming.
Ao longo de mais de 800 páginas, o livro organiza esse processo em episódios que combinam bastidores inéditos, memória crítica e leitura histórica. É nessa chave que surgem alguns dos eixos mais marcantes do volume: as mudanças na grade de programação, a contratação de nomes que chamavam a atenção na concorrência, as tentativas de popularização do conteúdo diante da disputa por audiência, a reformulação do jornalismo em meio a episódios traumáticos e à polarização política, o desgaste e a reinvenção da dramaturgia, a transformação do esporte em espetáculo e as disputas comerciais por anunciantes e mercado.

No campo do entretenimento, Metamorfose mostra uma emissora que, mesmo perdendo parte da audiência tradicional da TV aberta, ainda foi capaz de produzir fenômenos de massa. O caso mais evidente é o do Big Brother Brasil, que ajudou a redefinir a relação da Globo com os realities e com o cotidiano dos brasileiros. Ao mesmo tempo, o livro acompanha os acertos e tropeços da emissora em sua tentativa de se reinventar no humor e no entretenimento, enquanto buscava responder a um público mais fragmentado e a uma concorrência cada vez mais agressiva.
Na política, atravessa alguns dos episódios mais delicados da vida pública recente. Passa pela aproximação inicial entre Globo e PT no fim da era FHC, pela deterioração dessa relação nos primeiros anos do lulismo, pela explosão do Mensalão, pelo mergulho da emissora, ao lado da grande imprensa, na cobertura da crise política e, mais tarde, no ambiente criado pela Lava Jato. O livro também percorre o impeachment de Dilma Rousseff, o período Temer e o confronto aberto com Bolsonaro, quando a Globo passa a ser atacada pela extrema direita ao mesmo tempo que enfrenta críticas da esquerda, num cenário já marcado pela polarização das redes sociais, pela circulação de fake news e pelo desgaste de credibilidade das instituições de imprensa.
No campo do poder, Ernesto Rodrigues acompanha a morte de Roberto Marinho, o impacto interno provocado pela ausência do fundador e a consolidação do comando da empresa sob seus filhos. O livro mostra como, já de fato dirigida pelos herdeiros, a Globo redefiniu seus rumos, profissionalizou a sucessão familiar, enfrentou disputas entre executivos e preservou sua capacidade de influência em um ambiente muito mais instável do que aquele das décadas anteriores.
Na dramaturgia, acompanha a transição entre uma era de centralidade absoluta da novela e outra em que o gênero continua decisivo, mas já não reina sozinho. O autor revisita títulos, crises e bastidores que ajudam a contar essa mudança, de Terra Nostra a Avenida Brasil, de Caminho das Índias a Amor de Mãe, passando ainda pelo impacto de obras como Fina Estampa e pelo remake de Pantanal e de Vale tudo, que mobilizou a atenção de milhares de brasileiros, nas telas e pelas redes sociais.
A área comercial, menos visível para o grande público, aparece como um dos motores mais concretos dessa transformação. O livro revela a pressão dos anunciantes, os conflitos com o mercado, a importância estratégica de São Paulo, a disputa em torno dos índices de audiência e os embates sobre o merchandising nas novelas. Mostra também como a emissora manteve, com folga, sua participação bilionária no chamado “bolo publicitário”, assegurando a sobrevivência financeira do próprio Grupo Globo em meio a sucessivas crises e a um cenário de concorrência crescente.
A conclusão deste projeto mostra que a história da Globo não pode ser lida apenas como a de uma emissora ou de uma empresa de mídia. Em suas mudanças de linguagem, de ambição, de poder e de prestígio, passam também as mudanças do país. É nesse ponto que A Globo: Metamorfose encontra sua medida mais precisa: ao encerrar a trajetória de um grupo de comunicação, o livro também recompõe, em escala ampla, um trecho decisivo da experiência brasileira recente.
Sobre o autor: Ernesto Rodrigues, 70 anos, mineiro de Lambari, formado pela PUC Minas e repórter desde 1978, trabalhou nos jornais O Globo e Jornal do Brasil, e nas revistas IstoÉ e Veja, antes de iniciar, em 1986, uma carreira de 15 anos como editor e executivo de telejornais e programas da TV Globo, e como chefe da sucursal da emissora em Londres. A partir de 2001, passou a se dedicar às aulas de Jornalismo na PUC-Rio; foi ombudsman da TV Cultura de São Paulo entre 2008 e 2010, e montou, em 2013, a Bizum, produtora na qual roteirizou e dirigiu mais de 20 documentários sobre temas e personagens diversos.
Como escritor e biógrafo, além de Ayrton, o herói revelado (Tordesilhas, 2024), escreveu e organizou o livro No próximo bloco… O jornalismo brasileiro na TV e na Internet (Edições Loyola/Editora PUC-Rio, 2005). Também é autor de Jogo duro: a história de João Havelange (Record, 2007); O traço da Cultura: o desafio de ser ombudsman da TV Cultura, a emissora mais festejada e menos assistida do Brasil (Editora Reflexão; Editora PUC-Rio, 2014); e Zilda Arns: uma biografia (Rocco, 2018). Ernesto vive e trabalha no Rio de Janeiro.
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