45% das pessoas mantém o peso após usar a caneta emagrecedora

Canetas emagrecedoras


As canetas emagrecedoras controlam com eficiência, mas não curam a obesidade. Não à toa, muitas das dúvidas sobre esses remédios dizem respeito à continuidade do tratamento, ao risco de reganho de peso e aos efeitos do para-e-continua, o chamado uso ioiô ou sanfona. Este último é comprovadamente um caminho para um progressivo ganho de peso.

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Muitas pessoas deixam de usar as canetas, tanto com semaglutida quanto com tirzepatida, devido a fatores como custo elevado, intolerância a alguns dos efeitos colaterais, incômodo de manter um uso contínuo ou mesmo a disponibilidade dessas drogas.

O que acontece em decorrência das idas e vindas ou do uso prolongado são questões ainda em aberto. Por serem medicamentos novos, nenhum dado é conclusivo no longo prazo. Mas médicos já alcançam bons resultados em manter o peso de seus pacientes.

Uso por toda a vida?

Os estudos indicam que as canetas são medicamentos de uso contínuo, assim como a obesidade é uma doença crônica. Parou, engordou de novo. É um casamento sem divórcio, mas que médicos avaliam valer à pena para quem sofre de obesidade ou de sobrepeso com comorbidades.

As canetas controlam a fome e aumentam a sensação de saciedade, mas seus efeitos não perduram muito quando o uso é interrompido. O tempo de permanência dos efeitos após o uso cessar varia de uma pessoa para outra e em função de uma série de variáveis. A mais importante delas é a mudança do estilo de vida. A dieta e os exercícios precisam ser mantidos, sob a pena da volta do peso perdido.

O ganho de peso é o resultado da diferença de quanto se ingere e o que se gasta, em energia. É assim que o corpo funciona. A caneta interfere nesse processo porque reduz drasticamente a vontade de comer e reduz a velocidade como o alimento é “processado” pelo estômago.

Ela elimina também o chamado “ruído alimentar”, aquela voz interior que se imiscui nos pensamentos a toda hora, perguntando quando e como será o jantar, se não dá para fazer um lanchinho.

Mas, sem a caneta, voltam a fome e a voz da tentação. Dificilmente a perda de peso será mantida, se a pessoa não tiver disciplina férrea na alimentação e deixar de ser exercitar. É possível, porém, fazer retiradas progressivas para alguns pacientes.

— O uso prolongado vai depender das necessidades do paciente. Mas são drogas de uso contínuo, assim como a obesidade é uma doença crônica e recidiva — afirma o endocrinologista João Salles, diretor do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes e secretário-geral da Federação Latino-Americana de Obesidade.

Se parar com a caneta, se engorda tudo de novo?

Não necessariamente. Mas boa parte do peso perdido volta para muitas pessoas. A análise mais recente sobre a interrupção do uso das canetas, publicada este ano na Lancet, foi liderada por Brajan Budini, da Universidade de Cambridge (Reino Unido).

Os pesquisadores analisaram 48 estudos revisados por pares, com mais de 3 mil adultos com sobrepeso ou obesidade. Descobriram que cerca de 60% do que foi perdido retorna em um ano, se o uso for interrompido. Depois de 1 ano, o reganho desacelera e estabiliza em torno de 75% do total perdido. Alguém que emagreceu 20 kg, reganha cerca de 15 kg e fica 5 kg mais leve que no início.

Isso sugere um benefício parcial duradouro, mas bem menor que durante o uso. Poderia existir um benefício residual no cérebro ou metabolismo, embora bem menor que durante o uso. Mas essa análise não estimou o percentual de pacientes que voltam a engordar individualmente. Ele descreve o padrão médio de reganho de peso em todos os participantes analisados.

Qual o segredo de quem consegue parar?

Já uma análise de 7.938 adultos com obesidade ou sobrepeso descobriu que 45% mantiveram a perda de peso após um ano, o que é ótima notícia. O estudo da Clínica Cleveland, publicado esta semana na Diabetes, Obesity and Metabolism, sugere que interromper o uso de semaglutida e tirzepatida, em média, não leva necessariamente a um reganho significativo de peso.

Mas os pesquisadores não investigaram se esses efeitos são mantidos por mais de um ano. Os pacientes que tiveram sucesso em manter o peso foram os que adotaram as chamadas mudanças do estilo de vida (leia-se dieta e exercício) e/ou fizeram um tratamento alternativo para obesidade.

Esse é um dos chamados estudos “do mundo real”, feito sem ambiente controlado e apenas observando o que acontece no dia a dia dos pacientes. E seus resultados são melhores do que os de estudos realizados pelos próprios laboratórios farmacêuticos, que mostraram uma recuperação geral de mais da metade do peso perdido em 12 meses.

Existe desmame eficiente?

Se fosse fácil comer pouco ou muito pouco, as canetas não seriam necessárias. Essas drogas também tornam o metabolismo mais eficiente. João Salles diz que, dependendo de características de cada paciente, é possível tentar retirar as canetas progressivamente, sempre com acompanhamento médico, manutenção da dieta e realização de atividade física.

— Alguns pacientes podem ser orientados a reduzir a dosagem ou a passar a tomar outros medicamentos. Para ficar no peso desejado tem que mudar e manter o estilo de vida – destaca Salles.

É por isso mesmo, pela dificuldade de manter dieta sem a caneta, que muita gente precisará fazer uso de medicamento para sempre, salvo algum avanço na medicina nos próximos anos.

— Quem começar a usar, provavelmente precisará manter esses remédios para sempre. Não vejo um desmame eficiente. Uma minoria pode até conseguir, mas não é para todo mundo — observa Lício Velloso, especialista em obesidade da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC).

Expectativa versus realidade

Bruno Gualano, coordenador do Centro de Medicina do Estilo de Vida da Universidade de São Paulo (USP), diz que a maioria das pessoas que começa a usar as canetas têm a expectativa de parar um dia.

— Caneta não é elixir de magreza. No momento, não há garantia de que o indivíduo não precisará ficar com o remédio e a academia pela vida toda. É fundamental a manutenção da dieta e da atividade física, e não são volumes pequenos de exercício. Quando se para, é muito difícil não engordar — frisa Gualano.

Outros benefícios também cessam?

Parar medicamentos GLP-1 (semaglutida e tirzepatida) pode rapidamente apagar os benefícios cardiovasculares dessas drogas, segundo pesquisa da Universidade de Washington também publicada este mês. O estudo na revista BMJ Medicine indicou que até interrupções breves podem diminuir as reduções no risco de infarto, AVC e morte.

O estudo analisou dados de 333.687 veteranos de guerra americanos com diabetes tipo 2 por três anos. Comparado ao uso contínuo, descobriram que parar ou interromper o tratamento com GLP-1 por apenas seis meses foi associado a um aumento significativo no risco de eventos cardiovasculares graves. Quanto maior a interrupção no tratamento, maior o salto no risco — até um aumento de 22% para infarto, AVC e morte após dois anos sem GLP-1s, apagando em grande parte os benefícios cardiovasculares ganhos durante o tratamento.

Um chicote que aumenta riscos

Quando se para de usar as canetas, não é só o peso que volta. Há um ressurgimento na inflamação, pressão arterial e colesterol. O reganho de peso é visível; mas a reversão metabólica não é, disseram os cientistas na BMJ Medicine. “Nossos dados sugerem que esse chicote metabólico é prejudicial à saúde cardíaca. Reiniciar o medicamento ajudou a restaurar alguma proteção, mas apenas parcialmente, mostrando que a descontinuação deixa uma cicatriz duradoura”, diz o estudo.

Apenas um ano fora da droga foi mais que suficiente para os participantes do estudo perderem benefícios cultivados ao longo de anos de tratamento contínuo. Uma vez perdidos, esses ganhos não foram totalmente restaurados pela retomada do tratamento.

O efeito perverso do ioiô

É consenso entre especialistas que o chamado uso ioiô, ou cíclico, no jargão médico, agrava a tendência para engordar. Não é exclusividade das canetas. Usar e parar canetas, assim como dietas, desregula o metabolismo e o resultado é que fica cada vez mais fácil ganhar peso e aumenta, progressivamente, e a cada para-e-volta ou ciclo, a dificuldade para emagrecer.

Se a ideia é usar por um tempo a caneta, parar e depois retomar em caso de necessidade, melhor nem tentar, alertam especialistas. Isso pode custar a uma pessoa de peso normal ou leve sobrepeso a desenvolver sobrepeso.

O motivo é uma lei da natureza, que se mantém inabalável. O corpo humano evoluiu para conservar energia. Na maior parte de nossa história evolutiva alimento era escasso, pouco calórico e a atividade física constante, numa eterna luta por comida e para não virar comida.

Quando uma pessoa passa a comer menos, o corpo tenta se adaptar. Para isso, reduz o ritmo do metabolismo, para poupar a energia, para uma possível “escassez” que na nossa sociedade, cheia de comida altamente calórica, não virá. Ele demora mais tempo para queimar a gordura. É por isso que se perde mais peso no início de um tratamento e dieta e depois ele tende a se estabilizar.

A caneta tira a fome e a pessoa naturalmente come muito menos. Sem ela, a fome volta, mas o corpo está mais lento para queimar gordura. Ela se acumula mais. A cada ciclo, esse processo piora. O resultado é o ioiô acarretar num ganho de peso maior do que o inicial.

— O esperado é que se ganhe peso quando se interrompe o tratamento. Quando se emagrece, se perde gordura e músculos. Mas quando se engorda, o aumento é todo em gordura. A pessoa vai ficando cada vez pesada e com menos músculos – explica Clayton Macedo, coordenador do Ambulatório de Endocrinologia do Exercício da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia.

Ele acrescenta que o reganho é proporcional ao tamanho da perda. O que equivale dizer que quem perdeu muito, também engordará mais.

— O efeito ioiô é muito nocivo. Ele é mais perigoso do que as pessoas costumam imaginar, precisa ser motivo de atenção – complementa Macedo.

Contradições e incertezas

Os dados variam de um estudo para o outro e isso é esperado, uma vez que o uso em larga escala das canetas é um fenômeno recente e em expansão. Só o tempo poderá dar respostas mais conclusivas, explicam cientistas.

Fonte O Globo