Do terreiro ao patrimônio: saberes ancestrais viram ferramenta de resistência e identidade no Brasil

Terreiro


O Brasil testemunha um aumento alarmante nos casos de discriminação religiosa em 2025. De acordo com balanço do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) apresentado no início do ano, o Disque 100 – serviço gratuito e sigiloso do governo federal brasileiro, disponível 24 horas, para denúncias de violações de direitos humanos, especialmente contra crianças, adolescentes, idosos, pessoas com deficiência e população LGBTQIA+, entre outros – registrou um total de 2.774 denúncias de intolerância religiosa em doze meses, ou seja, entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026. O número representa um crescimento de 12,2% em relação ao mesmo período em do ano anterior.

É nesse cenário de hostilidade crescente que a recente patrimonialização de saberes ancestrais surge não como um ato folclórico, mas como uma poderosa ferramenta de resistência e coesão social. O reconhecimento de rituais, dialetos e liturgias como patrimônio cultural do Brasil transcende a reparação simbólica, atuando como um antídoto contra o apagamento histórico e fortalecendo a identidade nacional em tempos de hiperconectividade.

“Esse processo confere um selo institucional a práticas culturais que foram historicamente marginalizadas. Quando um ritual ou um dialeto sagrado é reconhecido como patrimônio, ele deixa de ser visto apenas como uma prática religiosa particular e passa a ser compreendido como parte constitutiva da memória coletiva e da diversidade cultural da nação”, explica Eduardo Sales de Lima, doutor e professor do curso de Teologia da UniCesumar.

Na prática, isso significa que essas expressões culturais são inseridas em políticas de preservação e salvaguarda, questionando a hierarquia de conhecimentos herdada do período colonial.

Resistência, acolhimento e coesão social

A manutenção de liturgias, cantos e dialetos sagrados de matriz africana em pleno 2026 é, em si, um ato de resistência cultural e política. Para o teólogo Jonas Brustulin Ramos, mestre e professor da UniCesumar, preservar essas práticas é um exercício de ‘desobediência epistêmica’, pois reafirma a força de uma memória histórica que sobreviveu a séculos de perseguição e tentativas de apagamento. “Cada ritual preservado e cada canto entoado representa não apenas continuidade religiosa, mas uma afirmação cultural e memória histórica frente às estruturas que tentaram silenciá-las”, explica Ramos.

Além da resistência, os terreiros se consolidam como espaços vitais de coesão social. Historicamente, funcionaram como redes de solidariedade e acolhimento para populações marginalizadas, fortalecendo laços de identidade e oferecendo suporte emocional e social. “Eles operam como espaços de produção de conhecimento e de preservação da memória afro-diaspórica, construindo narrativas históricas alternativas às versões dominantes”, complementa o professor Eduardo Sales de Lima,

O desafio da hiperconectividade e o papel da sociedade

Na era da hiperconectividade, em que a informação é consumida de forma instantânea, a popularização das tradições de matriz africana apresenta um risco: a banalização. Jonas Brustulin Ramos alerta que a simplificação para o consumo em redes sociais pode esvaziar os profundos significados simbólicos dessas práticas. “A divulgação exige cuidado e responsabilidade para não gerar exotização ou apropriação indevida”, pontua.

Ignorar essa herança cultural, segundo ele, leva a um duplo empobrecimento para o Brasil: oculta parte fundamental de sua história e limita a capacidade do país de se reconhecer como plural. Por isso, a valorização desse patrimônio é uma responsabilidade de todos. “A sociedade não praticante, as escolas, a mídia e as artes têm um papel decisivo na desconstrução de estereótipos e na promoção do respeito. Avançar no combate à intolerância religiosa é construir uma cultura social baseada no reconhecimento da dignidade de todas as formas de experiência religiosa”, conclui Ramos.