O uso das canetas emagrecedoras começa a transformar também a procura por cirurgia plástica. Pesquisa divulgada em setembro de 2026 pela Sociedade Americana de Cirurgiões Plásticos (ASPS) revelou que 82% dos cirurgiões participantes receberam, em 2025, consultas relacionadas ao uso desses medicamentos. Com a perda significativa de peso, pacientes que conseguiram reduzir medidas passaram a buscar tratamentos para gordura localizada, flacidez abdominal, excesso de pele e alterações no volume das mamas.

Para Marco Dallegrave, cirurgião plástico, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), com 21 anos de experiência e mais de 5 mil cirurgias realizadas, o emagrecimento pode representar uma nova etapa no planejamento estético. Especialista em mini lipoaspiração, contorno corporal e cirurgias das mamas, ele explica que a redução de peso nem sempre produz o formato corporal desejado, especialmente quando há perda importante de volume e diminuição da elasticidade da pele.
“As canetas emagrecedoras estão permitindo que muitas pessoas alcancem uma redução de peso significativa, mas existe uma diferença entre emagrecer e conquistar o contorno corporal que se deseja. Algumas pacientes continuam com gordura localizada, outras percebem flacidez no abdômen ou mudanças nas mamas. A cirurgia plástica pode complementar esse processo, valorizando os resultados do emagrecimento e melhorando as proporções do corpo”, explica Dallegrave.
O que acontece com a pele depois do emagrecimento
A perda de peso diminui o volume de gordura, mas a pele nem sempre consegue acompanhar essa mudança. Idade, genética, tempo de sobrepeso, quantidade de quilos eliminados e elasticidade dos tecidos influenciam o resultado.
O problema pode aparecer principalmente no abdômen, braços, coxas e mamas. Nos casos em que existe gordura localizada e boa retração da pele, a mini lipoaspiração pode ser considerada. Quando o incômodo principal é o excesso de tecido cutâneo, procedimentos como abdominoplastia e mastopexia podem oferecer resultados mais adequados.
“A mini lipoaspiração é uma alternativa interessante para pacientes que já emagreceram e continuam incomodadas com pequenos depósitos de gordura. Mas ela não deve ser confundida com uma cirurgia para retirar grandes quantidades de pele. Se existe flacidez importante, precisamos avaliar outras técnicas. O segredo está em identificar o que realmente precisa ser corrigido, sem indicar um procedimento maior quando uma abordagem menor é suficiente”, esclarece o cirurgião.
Nos Estados Unidos, o levantamento da ASPS contabilizou 317.196 lipoaspirações, 173.251 abdominoplastias e 156.131 mastopexias em 2025. As cirurgias de levantamento das mamas cresceram 8%, enquanto as de braços e coxas avançaram 21% e 20%, respectivamente. Os dados abrangem diferentes indicações e não representam exclusivamente pacientes que utilizaram medicamentos para emagrecer.
Quando é a hora certa de fazer a cirurgia
A indicação depende da estabilidade do peso, das condições nutricionais e da avaliação clínica. Em cirurgias de remodelação após grandes perdas ponderais, pode ser recomendável manter o peso estável por vários meses, frequentemente de seis a 12 meses, conforme o histórico individual e o procedimento planejado.
Não existe uma estação obrigatória para operar. Intervenções de contorno corporal também podem ser realizadas no verão, desde que a paciente consiga respeitar as restrições de esforço, exposição solar e atividades físicas.
Segundo Dallegrave, a mini lipoaspiração pode permitir a retomada relativamente rápida de tarefas leves em pacientes selecionadas, enquanto intervenções para retirar excesso de pele geralmente exigem recuperação mais prolongada.
O planejamento também envolve a estrutura de atendimento. Dallegrave atua em uma clínica dedicada exclusivamente à cirurgia plástica, com instalações modernas e recursos tecnológicos voltados à especialidade. Essa organização concentra a rotina assistencial nas necessidades de quem será operado, da preparação ao acompanhamento pós-operatório
“Não é necessário esperar uma época específica do ano, mas existe o momento adequado do organismo. Uma paciente que ainda está perdendo muito peso pode apresentar novas alterações no corpo depois da operação. Por isso, avaliamos se ela está próxima da meta, se consegue manter uma alimentação adequada e se possui condições para uma boa cicatrização. Esse planejamento aumenta a previsibilidade do resultado”, ressalta.
Quem usa canetas precisa suspender o medicamento antes da anestesia
Medicamentos como semaglutida e tirzepatida podem retardar o esvaziamento do estômago, condição que exige atenção durante a anestesia pelo risco de aspiração do conteúdo gástrico.
As recomendações médicas evoluíram. Diretrizes internacionais reconhecem que pacientes com baixo risco podem continuar o tratamento antes de cirurgias eletivas, enquanto outros casos exigem medidas específicas, incluindo alimentação líquida nas 24 horas anteriores, ajustes medicamentosos ou adiamento do procedimento.
A decisão depende de fatores como dose utilizada, sintomas gastrointestinais, fase de adaptação ao medicamento, presença de diabetes e tipo de anestesia. Em determinadas situações, a equipe pode recomendar a suspensão de formulações semanais por sete dias ou outro intervalo individualizado.
“O mais importante é que a paciente informe exatamente qual medicamento utiliza, a dose e quando foi feita a última aplicação. Não existe uma regra única para todas as pessoas. A definição precisa ser compartilhada entre o cirurgião plástico, o anestesiologista e o médico que acompanha o emagrecimento. Suspender a medicação por conta própria também pode prejudicar o controle do peso ou da glicemia”, alerta Dallegrave.
Recuperação e cuidados para não recuperar o peso
Em procedimentos menores e selecionados de lipoaspiração, atividades leves podem ser retomadas em alguns dias, dependendo da evolução clínica. Cirurgias mais extensas de remoção de pele frequentemente exigem de duas a quatro semanas para uma recuperação funcional inicial e cerca de seis semanas ou mais para atividades físicas intensas.
A alimentação merece atenção especial. Uma revisão científica publicada em 2026 na revista Plastic and Reconstructive Surgery destacou a importância da ingestão adequada de proteínas e da correção de deficiências nutricionais antes de cirurgias de contorno corporal realizadas após emagrecimento significativo.
Para preservar os resultados e reduzir o risco de recuperar o peso anterior, são recomendados acompanhamento médico e nutricional, atividade física regular após liberação, exercícios de fortalecimento muscular e manutenção do tratamento da obesidade quando indicado.
“A cirurgia melhora o formato do corpo, mas não substitui os hábitos necessários para manter o emagrecimento. Nosso objetivo é trabalhar o contorno corporal enquanto a paciente continua cuidando da saúde. Quando conseguimos associar uma boa indicação cirúrgica à estabilidade do peso e ao acompanhamento adequado, aumentamos as chances de preservar os resultados por muitos anos”, afirma o especialista.
Canetas devem ampliar a procura por remodelação corporal
A expansão do tratamento medicamentoso da obesidade também deve influenciar o setor de estética nos próximos anos. Em setembro de 2026, o Ministério da Saúde informou que o Brasil já contava com 25 medicamentos injetáveis para obesidade registrados, sendo 14 naquele ano, e havia solicitado a avaliação de incorporação de determinadas opções ao Sistema Único de Saúde (SUS).
Para 2027, a perspectiva é de continuidade do interesse por procedimentos que tratam as alterações físicas posteriores ao emagrecimento. Entretanto, ainda não existem projeções oficiais que permitam quantificar o crescimento dessas cirurgias especificamente entre usuários das canetas.
“Acredito que veremos cada vez mais pacientes chegando ao consultório depois de uma perda importante de peso, buscando melhorar regiões que não responderam como esperavam. A cirurgia plástica tem um papel complementar nesse processo, principalmente quando conseguimos diferenciar gordura, flacidez e excesso de pele. O procedimento mais indicado não é necessariamente o maior, mas aquele que resolve a necessidade da paciente com segurança e um resultado proporcional”, conclui Dallegrave.
Sobre Marco Dallegrave
Dr. Marco Dallegrave é médico formado pela Faculdade Evangélica de Medicina do Paraná (FEMPAR), com residência em Cirurgia Geral pela Santa Casa de Curitiba e residência em Cirurgia Plástica pelo Hospital Universitário Cajuru, em Curitiba (PR). Também possui pós-graduação em Psiquiatria pelo CENBRAP, formação que complementa sua visão sobre os aspectos emocionais e psicológicos envolvidos na relação dos pacientes com a própria imagem.
Membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), atua há 21 anos na especialidade e já realizou mais de 5 mil cirurgias. Sua prática é voltada à cirurgia plástica estética, com ênfase em procedimentos de contorno corporal, mini lipoaspiração de recuperação rápida e cirurgias das mamas.
Ao longo da carreira, consolidou uma abordagem que alia excelência técnica, segurança e atendimento humanizado. Defende que a cirurgia deve respeitar a individualidade de cada paciente e ser compreendida como parte de um cuidado integral com a saúde e o bem-estar, e não apenas como uma transformação estética.


