Karol G é, sob qualquer critério, uma das artistas musicais mais populares do planeta. No início deste ano, a cantora nascida em Medellín tornou-se a primeira mulher latina a ser atração principal do Coachella, servindo de aquecimento para sua segunda turnê internacional em estádios nos últimos três anos. Seu quinto álbum, o festivo “Tropicoqueta” (lançado em 2025), rendeu à estrela de 35 anos sete indicações para o Grammy Latino, que acontece no próximo mês.
Com sua turnê *Viajando Por El Mundo* ainda no início neste verão, ela lançou de surpresa um novo álbum, “No Me Arrepiento de Sentir Tanto”. Tratava-se de um álbum mais intimista e caloroso, focado no pós-término de relacionamento, que equilibrava suas excentricidades (incluindo colaborações com Cigarettes After Sex e Oklou) com participações de peso como Drake e Bruno Mars. O disco também gerou “BbY WOW”, o sucesso dela que alcançou a posição mais alta na Billboard Hot 100 até o momento.
“Não vejo os dois álbuns como coisas diferentes”, disse Karol G — cujo nome de batismo é Carolina Giraldo Navarro — no *Popcast*, programa de cultura pop do jornal novaiorquino, “The New York Times”, mas sim como duas facetas da mesma superestrela em ascensão. “‘Tropicoqueta’ é o lado de fora: a festa, a extroversão, a felicidade, o convite para todos. Mas ‘No Me Arrepiento de Sentir Tanto’ é o que está aqui dentro. É o que ela estava vivendo e o que estava sentindo.”
Um álbum sobre o fim de um relacionamento — após a separação do astro latino Feid —, “No Me Arrepiento de Sentir Tanto” mostra Karol G cada vez mais à vontade em diversos estilos, chegando até a cantar em inglês pela segunda vez. Assim como Shakira fez antes dela — e como outros artistas de língua espanhola que não se prendem a gêneros, como Bad Bunny e Rosalía, estão fazendo agora —, Karol G tornou-se especialista em misturar os sons de seu país natal com uma paleta mais ampla da música latina, transitando com agilidade do reggaeton para o mariachi ou o merengue.
No *Popcast*, Karol G conversou com Jon Caramanica e Joe Coscarelli sobre a melhor forma de utilizar sua fama em prol de causas políticas; a crescente sobreposição entre as cenas musicais de língua espanhola de todo o mundo; e a transformação tanto do amor quanto da decepção em sucessos capazes de lotar estádios.
KAROL G Eu estava muito nervosa por ser uma atração principal, considerando o momento que a nossa comunidade estava vivendo no país. Eu sentia um grande peso sobre a responsabilidade de aproveitar aquele momento e fazê-lo valer a pena. Levei tempo para criar o show do Coachella, definir as causas que eu queria defender, minha mensagem e a forma como eu apresentaria a minha comunidade.
COSCARELLI Isso me faz pensar no Bad Bunny no Super Bowl — você estava lá na *casita* com ele — e no caráter histórico daquele momento. O desejo e a necessidade de representar uma parcela enorme da população: não apenas artistas colombianos, mas latinos de todo o mundo.
KAROL G Sim, era uma sensação de peso. Eu estava muito sobrecarregada porque queria unir tudo. Como mulher na indústria, sempre há essa mensagem para mim: como posso empoderar as mulheres para que façam o que quiserem? Mas, ao mesmo tempo, quero mostrar ao mundo quem é a Carolina. E, simultaneamente, quero representar os meus latinos.
Durante o processo, você se questiona o tempo todo: “Isso está bom o suficiente? Posso fazer mais?” Eu realmente quero fazer algo grandioso pela minha comunidade. Pelos latinos que enfrentam dificuldades neste país — nós os representamos.
JON CARAMANICA Você mencionou que havia uma pressão social sobre como você deveria falar a respeito do que está acontecendo neste país. Fico imaginando como sua visão sobre isso evoluiu ao longo deste ano, especialmente agora que você está passando por tantas cidades americanas.
KAROL G Eu entendo por que os artistas sofrem pressão para se manifestar, pois, de fato, temos muita influência. Levei muito tempo para chegar onde estou hoje — passei por momentos difíceis e fiz muitos sacrifícios —, mas, ao mesmo tempo, foi esse processo que me fez compreender a importância de me posicionar sobre as coisas. Por isso, levo tudo muito a sério; às vezes, isso acaba sendo algo negativo. Escolhas dos Editores
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COSCARELLI Você se cobra demais?
KAROL G É, eu coloco muita pressão sobre mim mesma. Eu adoraria usar a influência que tenho para mudar as coisas completamente. E, às vezes, você faz coisas e elas não mudam tanto assim, mas eu penso comigo mesma: estou fazendo o melhor que posso. Mesmo com a minha fundação, temos um programa bem específico para ajudar mulheres e imigrantes de forma legal.
COSCARELLI Isso reflete, eu acho, o que o Bad Bunny fez no Super Bowl — ou seja: naquele palco, com a maior audiência possível, vamos demonstrar orgulho, acolhimento e alegria, talvez sem dizer nada especificamente sobre as deportações do ICE. Mas, nos bastidores, é onde realizamos nosso trabalho de base. É importante para você manter essas coisas separadas, em vez de falar de forma mais incisiva no palco?
KAROL G Acho que não tem como separá-las. Acho que as pessoas sabem o que os latinos dizem — todos nós somos do tipo “que se dane o ICE”, sabe? Mas, no meu palco, não se tratava apenas de dizer isso — e o que isso significa? Só isso? Não, eu queria fazer algo bom o suficiente e grandioso o bastante para aquele palco específico.
COSCARELLI Você criou um espaço abrangente para toda a música latina, mas nem sempre foi assim. Você vem de um lugar e uma época específicos: a Medellín dos anos 2010, quando a cultura do reggaeton estava chegando à América do Sul vinda de Porto Rico, onde surgiu. Qual era a sonoridade da Colômbia na época em que você começou, e como ela estava mudando?
KAROL G É loucura, porque comecei a fazer reggaeton quando o J Balvin já era um artista colombiano do gênero, mas todos nós achávamos que ele era de Porto Rico.
CARAMANICA Nem na Colômbia vocês tinham certeza?
KAROL G É, porque o som dele era muito bom, e eu fiquei surpresa. Foi uma loucura. Acredito muito que a Colômbia tem uma participação enorme na dimensão que a música urbana alcançou atualmente em nível global. Houve tantos artistas porto-riquenhos que foram morar na Colômbia. Por exemplo, o Nicky Jam. Ele sempre expressou sua gratidão ao nosso país, porque foi um momento marcante. Tive essa conversa com o Daddy Yankee, e ele dizia a mesma coisa.
CARAMANICA Os artistas daquela época que estavam chegando ao reggaeton tinham muitos impulsos pop. Quando a cena colombiana realmente começou a decolar, as pessoas pensavam: “Ah, podemos deixar o som mais polido, mais brilhante, mais grandioso, mais suave e com menos arestas”, e isso acaba viajando muito bem pelo mundo.
KAROL G Passei muito tempo indo aos estúdios, perguntando coisas como: “Posso ficar aqui enquanto vocês trabalham?” Eu ficava lá observando os produtores e pensava: “O som deles é assim, mas não temos isso na nossa biblioteca”. Então eles tentavam recriar aquilo, mas tudo soava um pouco diferente. Então, sim, o reggaeton colombiano tinha uma sonoridade própria.
CARAMANICA Tenho idade suficiente para me lembrar de quando um artista de reggaeton não fazia nada com um artista regional mexicano, ou um cantor de bachata não se aventurava no reggaeton. As cenas eram muito isoladas. Hoje em dia, isso não acontece mais, graças à ascensão do streaming e ao impacto que ele teve na música latina. Você pode falar sobre como é criar músicas em tantos estilos diferentes?
KAROL G Preciso dizer que fui fã de reggaeton desde o início. Mas, quando comecei a fazer o meu próprio som, não demorei muito para começar a misturar estilos. Tenho músicas bem antigas em que misturei merengue com reggaeton. Tenho uma música chamada “Así Es el Amor” que é mariachi — literalmente mariachi com reggaeton [lançada em 2013]. Então, agora estou apenas fazendo a mesma coisa, mas em uma escala maior.
COSCARELLI Mas nem sempre foi fácil misturar gêneros ou cruzar culturas. Às vezes, houve resistência por parte de fãs ou outros artistas, que alegam que é apropriação cultural quando artistas colombianos fazem uma música de reggaeton porto-riquenho ou uma canção mexicana. Como você lidou com essas críticas ao longo da sua trajetória? KAROL G: Eu entenderia se tivesse feito isso por causa de alguma tendência ou por qualquer motivo que não fosse honesto. Para mim, não se trata de apropriação cultural — por exemplo, no caso do mariachi ou da música mexicana —, porque cresci ouvindo esse gênero. Tive um grupo de mariachi na minha festa de 15 anos. Cresci ouvindo aquilo, sendo fã, compreendendo a cultura, aprendendo sobre ela e pesquisando a respeito.
Por exemplo, com a música de mariachi que tenho [“Ese Hombre Es Malo”], fui ao México e me reuni com os mestres mais incríveis e geniais da música. Sou muito fã de Juan Gabriel e de Rocío Dúrcal. E, na verdade, Rocío é um ótimo exemplo, porque ela era da Espanha. Mas ela amava tanto a música e a cultura que se mudou para o México. E, se você ama, se demonstra respeito e se faz isso da maneira certa, eu mesma não considero que seja apropriação cultural. É como nascer em um mundo repleto de culturas, cores e sons diferentes. Por que você não poderia se apaixonar por algo diferente daquilo que é próprio do lugar onde nasceu?
COSCARELLI Também tem a questão de trazer colaboradores específicos, como na sua música de homenagem à Selena. Você está trabalhando com o compositor e produtor dela.
KAROL G Pete Astudillo. A Selena Quintanilla sempre foi a minha maior referência latina desde que eu era criança. Então, a maneira certa de fazer isso era trazer as pessoas que fizeram o trabalho original e criaram aquele som que o mundo conheceu. Nós convidamos o Pete — ele não estava mais fazendo música. Ele não compunha mais para ninguém depois da Selena. E eu ficava pensando: “Será que ele vai aceitar ou não?” Mas, na verdade, foi algo divino. Ele aceitou. E, se você ouvir a música, sente as raízes. Você sente… eu sinto que é algo verdadeiro. É verdadeiro, é especial, soa como a cumbia que eu queria representar. Então, a música tem sido uma escola para mim. Meus próprios álbuns têm sido minha escola.
CARAMANICA Você tem uma tatuagem da Selena, né?
KAROL G Sou eu, a Rihanna e a Selena Quintanilla.
COSCARELLI A santíssima trindade. Ter uma tatuagem do próprio rosto no corpo é algo bem raro, eu acho. Tipo o Steve-O, do “Jackass”.
KAROL G É, é uma loucura, mas minha vida tem sido uma loucura, e só eu sei o quão louca ela tem sido.
COSCARELLI Você fez por merecer essa tatuagem de si mesma.
KAROL G É, eu fiz por merecer. E a questão é que todo mundo… nos ensinam o tempo todo a dar flores aos outros, mas não a nós mesmos, porque dizem que é uma questão de modéstia, mas eu não penso assim. Sinto muito orgulho de mim mesma. Não vou conseguir explicar todo o meu processo para o mundo, mas só de ter isso aqui… é como se eu soubesse: aquela garota é muito forte. CARAMANICA Você criou músicas muito intensas sobre términos de relacionamento nos últimos anos e viveu grande parte da sua vida sob os holofotes. Fale-me sobre a decisão de compartilhar, por meio de canções, os sentimentos vividos durante os momentos difíceis desse processo.
KAROL G Na verdade, essa foi a parte mais difícil: lançar o álbum. Isso porque, neste momento específico da minha vida, aprendi a tornar minha vida um pouco mais íntima. Então, no último ano, passei a postar menos e a viver mais a minha vida. A questão é que este álbum não é sobre mais ninguém além de mim. Por isso decidi seguir em frente; o álbum trata dos meus sentimentos. Talvez sentimentos de perda, confusão, raiva ou indignação. Agradeço a Deus quando vivencio situações que posso transformar em música, sabe? Sem uma musa inspiradora, não há boa música.
Então, agradeço a Deus por essa experiência que me proporcionou este novo álbum, uma nova forma de me conectar com as pessoas e um sucesso número 1.
CARAMANICA Há muitas celebridades que namoram outras celebridades e tentam esconder isso. Mas você assumiu a situação abertamente. Muitas vezes, após o término de um relacionamento assim, dizemos que foi uma má ideia, mas certamente houve coisas boas. Você poderia falar sobre o que lhe trazia segurança ao se envolver com alguém que levava uma vida semelhante à sua?
KAROL G Primeiro, preciso dizer que é muito difícil conhecer pessoas, porque trabalho o tempo todo — estou em turnê, fazendo música. Então, as pessoas que conheci e com quem criei laços foram aquelas com quem cruzei na estrada, trabalhando juntas.
Acho que o lado bom disso, no meu caso, é poder celebrar o sucesso de alguém que faz o mesmo que eu, mas sob uma perspectiva diferente. Sempre falo sobre como as pessoas me veem e o que sentem ao me assistir num show; consigo sentir isso quando vejo essa pessoa lotando um local. Penso: “Uau, isso é gigante”.
CARAMANICA Mas isso diminui você ou sua capacidade de dizer: “Sou a Karol G, não preciso desse cara”? Alguma vez isso mexeu com a sua cabeça, fazendo você pensar que havia algo trabalhando contra a sua capacidade de se sustentar sozinha?
KAROL G Não, não me sinto assim. Sinto-me confortável, segura e confiante o suficiente. Mas, no fim das contas, se algo acontece — ou quando estou perdendo essa pessoa —, eu digo: “Eu sou a Karol G”. Eu assumo isso e digo: “Quer saber? Foda-se, eu sou a porra da Karol G!”
Créditos
O Popcast é apresentado por Jon Caramanica e Joe Coscarelli, com produção de Sophie Erickson, Kate LoPresti e Felice Leon. Este episódio foi filmado por Lauren Pruitt, Bernardo Garcia Elguezabal e Pat Gunther. A edição ficou a cargo de Mark Zemel, com a colaboração de Rebecca Blandon. A música-tema é de Elisheba Ittoop. Nick Pitman é o engenheiro de áudio e Amanda Webster é a editora de fotografia. Brooke Minters é a produtora executiva. A fotografia do vídeo de abertura é de Emily Kordovich. Agradecimentos especiais a Sarah Bonn, Dahlia Haddad, Mike Cordero, Nicole Huber, Aaron Byrd, Carl Mazurek, Zach Caldwell, Maddy Masiello, Brad Kimbrough, Craig Hettich, Andrew Wilcox, David Malitz, Elena Bergeron, Sia Michel, Nina Lassam e Sam Dolnick.
Fonte New York Times






