A Inteligência Artificial é uma realidade que já vem sendo aplicada há algum tempo no diagnóstico do câncer de mama. Com tratamentos cada vez mais personalizados, o avanço da IA tem ajudado profissionais de saúde a identificar os tumores cada vez mais precocemente e a aprimorar o rastreamento.
O primeiro divisor de águas para a oncologia foi o conhecimento molecular do tumor, que permite identificar suas características, seu comportamento e a resposta de cada paciente para definir a estratégia de tratamento mais adequada.
Para a oncologista clínica e coordenadora da Residência Médica de Oncologia do Hospital Sírio-Libanês, em Brasília, Tatiana Strava, a definição do tratamento começa pela compreensão das características específicas da doença. “Quando temos o diagnóstico de câncer de mama, precisamos entender qual é o subtipo. Pela imuno-histoquímica, definimos se o câncer é hormonal, HER2 ou triplo negativo. Além do subtipo, temos também o estadiamento. Precisamos entender se o tumor está localizado na mama, se já passou para a axila ou se já está avançado, com metástase. Só a partir dessas informações é que o oncologista consegue indicar qual é o tratamento necessário”, explica.
Agora, com a IA, muitas novas avenidas se abrem. Uma das frentes que mais avançam é a incorporação de novas tecnologias à identificação da doença. Um estudo publicado em 2026 na Nature Medicine, com mais de 31 mil mulheres submetidas a mamografias, avaliou uma estratégia em que a inteligência artificial auxiliava na primeira análise dos exames. Na prática, a tecnologia funciona como uma espécie de segunda camada de avaliação, ajudando a separar exames que parecem normais daqueles que merecem uma análise mais cuidadosa pelo radiologista. A estratégia gerou um aumento de 15,2% na taxa de detecção de câncer. Houve também aumento na quantidade de mulheres chamadas para investigação adicional.
No Hospital Sírio-Libanês, a inteligência artificial já é utilizada para apoiar o acompanhamento de pacientes e reduzir lacunas no cuidado. O CareGaps Mama é uma plataforma que identifica, a partir do histórico de exames como mamografia, ultrassonografia e ressonância magnética, pacientes que precisam manter o acompanhamento recomendado e envia lembretes personalizados para estimular o retorno ao médico ou a realização de novos exames. Em uma análise inicial, realizada com pacientes classificadas como BI-RADS 3 — categoria que indica alterações provavelmente benignas, mas que exigem acompanhamento —, os contatos feitos pela plataforma aumentaram em 98% as chances de conclusão do ciclo de acompanhamento. A experiência mostra como a tecnologia pode ir além da identificação de alterações nos exames e atuar também na continuidade do cuidado, ajudando a aproximar a paciente do diagnóstico e do acompanhamento adequado.
A inteligência artificial (IA) também pode contribuir para diferentes etapas da assistência. “A IA tem auxiliado na detecção precoce de lesões milimétricas que, às vezes, não são vistas pelo olho humano, assim como ajuda na triagem e priorização em emergências, por exemplo, na detecção rápida de situações urgentes como AVC ou tromboembolismo pulmonar”, afirma a médica.
O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 78.610 novos casos de câncer de mama por ano entre mulheres brasileiras para o triênio 2026-2028. Em todo o mundo, foram estimados 2,3 milhões de novos casos e 764 mil mortes em 2023, segundo estudo publicado no Lancet Oncology.
Tratamento personalizado
Dois tumores que aparecem na mesma região da mama podem exigir tratamentos diferentes, porque suas características biológicas podem não ser as mesmas. “Cada vez mais a medicina está especializada. Temos terapias-alvo, imunoterapia, hormonioterapia, anticorpos conjugados a medicamentos, além da tradicional quimioterapia. Então, para indicar o tratamento ideal, precisamos entender o subtipo do câncer de mama”, afirma Tatiana.
Um exemplo dessa evolução foi apresentado no congresso da Sociedade Europeia de Oncologia Médica (ESMO) de 2026, no estudo PHERGain-2. A pesquisa acompanhou mulheres com câncer de mama HER2 positivo em estágio inicial e avaliou se a resposta ao tratamento inicial poderia ajudar a definir os próximos passos. Entre as pacientes que tiveram resposta completa, uma estratégia sem quimioterapia tradicional, mantendo medicamentos dirigidos contra o HER2, apresentou resultados favoráveis relacionados à preservação da qualidade de vida. Os resultados são promissores, mas ainda precisam de acompanhamento de longo prazo e não significam que a quimioterapia possa ser dispensada de forma geral.
No Outubro Rosa, essa evolução ajuda a ampliar a conversa para além da prevenção. O cuidado começa com atenção às mamas e avaliação médica diante de alterações, mas continua no diagnóstico preciso, na definição individualizada do tratamento e no acompanhamento ao longo de toda a jornada. Para cada mulher, o câncer de mama tem características próprias e a medicina trabalha para que o cuidado também possa ser cada vez mais personalizado.
Referências:
1. The Lancet Oncology – Dados globais de incidência e mortalidade por câncer de mama em 2023
https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1470204525007302
https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1470204525007302
2. Nature Medicine – Uso de inteligência artificial na detecção do câncer de mama por mamografia
https://www.nature.com/articles/s41591-026-04277-x
https://www.nature.com/articles/s41591-026-04277-x
3. Annals of Oncology – Estudo PHERGain-2 sobre tratamento personalizado do câncer de mama HER2 positivo
https://www.annalsofoncology.org/article/S0923-7534%2826%2900040-2/fulltext
https://www.annalsofoncology.org/article/S0923-7534%2826%2900040-2/fulltext
4. Instituto Nacional de Câncer (INCA) – Estimativa de incidência de câncer de mama no Brasil para 2026–2028
https://www.gov.br/inca/pt-br/assuntos/cancer/numeros/estimativa/sintese-de-resultados-e-comentarios
https://www.gov.br/inca/pt-br/assuntos/cancer/numeros/estimativa/sintese-de-resultados-e-comentarios

