Foto: Gabriel Marchi
O turismo em áreas naturais pode gerar renda, conservar ecossistemas e fortalecer culturas locais. Mas também pode ampliar desigualdades e pressionar territórios, dependendo da forma como é estruturado. No Dia Mundial do Turismo Ecológico (1º de março), pesquisadores e gestores ligados à Fundação Grupo Boticário, Universidade Federal do Paraná (UFPR) e à Grande Reserva Mata Atlântica defendem que o futuro do setor passa por planejamento, governança local e adaptação climática.
Turismo não é neutro
O Professor do Departamento de Turismo da UFPR e pesquisador do Lageamb, Vander Valduga destaca que a ideia de que seria possível viajar sem gerar impactos já não se sustenta. “O turismo integra um sistema econômico que opera em um planeta de recursos finitos”, afirma. A atividade depende de transporte, energia e infraestrutura e, historicamente, esteve associada a processos de degradação ambiental e concentração de renda.
Segundo ele, conceitos como ecoturismo e turismo sustentável convergem hoje para o chamado turismo regenerativo. A proposta vai além de reduzir danos, busca gerar benefícios econômicos, ambientais, sociais e culturais, colocando as comunidades receptoras como protagonistas das decisões.
Para que esse modelo funcione, Valduga ressalta a importância de reduzir a intermediação excessiva na cadeia turística, que muitas vezes concentra renda fora do território, e garantir trabalho digno para guias, pequenos empreendedores e trabalhadores locais. “Sem justiça social, não há sustentabilidade possível”, resume.
Clima já mudou o turismo
A emergência climática deixou de ser um cenário futuro. Eventos extremos como: alterações no regime de chuvas e variações de temperatura já impactam trilhas, cachoeiras, unidades de conservação e a própria experiência turística.
Na Reserva Natural Salto Morato, unidade de conservação mantida pela Fundação Grupo Boticário, as fortes chuvas e ventos causam impactos para o turismo e para o manejo do espaço. Esse ano tivemos que fechar a Reserva em função de enchentes, afirma André Zecchin gestor da Reserva.
A turismóloga Amanda Selivon, gestora do projeto Adaptando Destinos Turísticos, afirma que a adaptação precisa entrar definitivamente na agenda do setor. “Adaptar calendários de visitação, protocolos de segurança e estratégias de manejo deixou de ser opcional. Estamos lidando com vulnerabilidades reais nos territórios”, explica.
O projeto Adaptando Destinos Turísticos é uma parceria da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza com Laboratório de Geoprocessamento de Estudos Ambientais da UFPR. A iniciativa prevê a elaboração de um plano de adaptação climática para o território Grande Reserva Mata Atlântica, considerado o maior remanescente contínuo do bioma no país.
Entre as ações previstas estão o diagnóstico das vulnerabilidades climáticas do território, a criação de programas de comunicação, a implementação de práticas de turismo sustentável e o aprimoramento do controle de visitação em unidades de conservação. A proposta é desenvolver uma metodologia que possa ser replicada em outros destinos de natureza.
