O aumento expressivo dos pedidos de recuperação judicial no agronegócio brasileiro acende um alerta para os desafios enfrentados pelo setor. Apenas no primeiro trimestre de 2026, foram registrados 517 pedidos, reflexo de um cenário marcado por juros elevados, crédito mais restrito e margens operacionais pressionadas.

Embora a recuperação judicial tenha se consolidado como um importante instrumento para reorganizar passivos e preservar a atividade produtiva, especialistas ressaltam que a renegociação das dívidas, por si só, não é suficiente para garantir a retomada das empresas rurais.
“O crescimento dos pedidos de recuperação judicial demonstra que o agronegócio atravessa uma mudança estrutural de ciclo econômico. Muitos produtores expandiram suas operações em um ambiente de crédito abundante e juros baixos, mas hoje enfrentam um cenário completamente diferente, com maior custo financeiro e mais dificuldade para acessar novos recursos”, afirma Claudio Montoro, advogado especialista em recuperação judicial e professor do Insper.
Segundo o especialista, o aumento das recuperações judiciais também reflete uma maior maturidade do setor em utilizar os mecanismos previstos na legislação para preservar empresas economicamente viáveis, evitando a liquidação de negócios que ainda possuem potencial de recuperação.
No entanto, Montoro destaca que muitos produtores ainda enxergam a recuperação judicial apenas como uma solução financeira imediata, quando, na realidade, ela deve fazer parte de um processo mais amplo de transformação empresarial.
“A recuperação judicial reorganiza o passivo e cria condições para que a empresa volte a respirar financeiramente. Mas ela não elimina problemas relacionados à gestão, à governança ou à eficiência operacional. Se essas questões não forem enfrentadas, existe o risco de a empresa voltar a enfrentar dificuldades no futuro”, explica.
Além do aumento do endividamento, o setor passou a conviver com um ambiente de maior cautela por parte de bancos e credores, o que torna as negociações mais complexas e exige dos produtores maior capacidade de planejamento e transparência.
Para o advogado, o atual momento representa uma oportunidade para que empresas rurais revisem seus modelos de gestão e fortaleçam sua estrutura interna.
“Os produtores que utilizarem esse período para aprimorar controles financeiros, rever estruturas de custos, investir em governança e modernizar a gestão estarão mais preparados para enfrentar futuras oscilações do mercado. A recuperação judicial deve ser vista como um ponto de partida para uma transformação mais profunda do negócio, e não apenas como uma renegociação de dívidas”, afirma.
Na avaliação de Montoro, a sustentabilidade do agronegócio dependerá cada vez mais da combinação entre disciplina financeira, gestão profissionalizada e planejamento estratégico de longo prazo.
“Mais do que reestruturar passivos, será necessário reestruturar o próprio negócio. Em um ambiente mais competitivo e menos tolerante a ineficiências, a capacidade de adaptação será um dos principais diferenciais para garantir a continuidade e o crescimento das empresas rurais”, conclui.

