Real estate americano volta ao centro da estratégia com compressão dos retornos financeiros

A expectativa de redução progressiva dos juros nos Estados Unidos a partir do fim de 2025 tem provocado um reposicionamento silencioso, porém consistente, entre investidores mais experientes. À medida que os rendimentos de títulos públicos e aplicações financeiras tradicionais começam a perder eficiência em termos reais, o mercado imobiliário americano volta a ganhar espaço como instrumento de preservação patrimonial e geração de caixa ajustada ao risco.

Dados do Federal Reserve Bank of St. Louis, que consolida séries históricas do mercado financeiro americano, mostram que ciclos de flexibilização monetária tendem a comprimir os yields reais de títulos de renda fixa, especialmente em ambientes de inflação ainda resiliente. Nesse cenário, o rentismo passa a oferecer retorno limitado após impostos e inflação, elevando o risco de reinvestimento para grandes patrimônios.

O real estate, por sua vez, apresenta dinâmica distinta. Índices da Federal Housing Finance Agency indicam que os preços dos imóveis residenciais nos Estados Unidos permanecem próximos dos níveis mais altos da série histórica, mesmo após o ciclo prolongado de juros elevados. Esse comportamento reflete uma base estrutural de demanda, sustentada por crescimento populacional em regiões específicas, escassez relativa de oferta e uso do imóvel como ativo de renda, não apenas de valorização.

Na Flórida, um dos principais destinos de capital imobiliário internacional, os fundamentos seguem sólidos. Informações do U.S. Census Bureau mostram que o estado mantém fluxo líquido positivo de novos residentes, movimento que sustenta a demanda por moradia e locação. Esse contexto ajuda a explicar por que, mesmo em um ambiente financeiro mais restritivo nos últimos anos, regiões como Orlando, Miami e Tampa mantiveram níveis elevados de ocupação e liquidez.

Para Leandro Sobrinho, empresário e investidor do setor imobiliário e cofundador da Davila Finance, administradora de ativos imobiliários com atuação nos Estados Unidos, a mudança no ciclo exige leitura técnica e menos emocional. “Quando o retorno financeiro começa a se comprimir, o investidor mais experiente passa a buscar eficiência real, não nominal. Imóveis bem estruturados oferecem renda, proteção e previsibilidade, algo que títulos financeiros deixam de entregar nesse estágio do ciclo”, afirma.

A avaliação ganha força quando se observa o retorno ajustado ao risco. Dados do Bureau of Labor Statistics mostram que custos ligados à habitação, como seguros, manutenção e serviços, continuam pressionados, o que torna a seleção do ativo ainda mais relevante. Nesse contexto, projetos com estrutura de custos desalinhada ou baixa demanda locatícia tendem a perder competitividade, enquanto imóveis capazes de gerar fluxo de caixa consistente preservam margem mesmo em cenários menos favoráveis.

Para Thiago Davila, empreendedor com mais de 20 anos de experiência no mercado imobiliário americano e também à frente da Davila Homes, o momento favorece quem entende a lógica dos ciclos. “O investidor sênior sabe que o melhor retorno não acontece quando o cenário já está completamente normalizado. Ele ocorre antes, quando os fundamentos estão claros, mas o capital ainda não voltou em massa”, diz. Segundo ele, a antecipação é parte essencial da estratégia em real estate.

Davila destaca que, a partir de 2026, a combinação entre crédito gradualmente mais acessível e demanda estrutural por moradia tende a melhorar o retorno ajustado ao risco dos imóveis, especialmente em mercados líquidos. “Não se trata de apostar em valorização rápida, mas de entrar em ativos que se sustentam operacionalmente enquanto o ciclo se ajusta”, afirma.

Esse movimento reforça uma característica histórica do mercado imobiliário americano: a capacidade de absorver capital de longo prazo em momentos de transição econômica. Relatórios do World Bank apontam os Estados Unidos como uma das jurisdições com maior previsibilidade regulatória e segurança jurídica para investimentos imobiliários, fator que reduz riscos institucionais e amplia a atratividade para investidores internacionais.

Para investidores experientes, o ciclo que se desenha não premia decisões tardias nem apostas genéricas. A compressão dos yields financeiros e a reprecificação do risco tendem a favorecer quem entra antes da normalização plena dos juros, com foco em ativos bem localizados, gestão eficiente e geração de caixa real. Nesse cenário, o real estate americano volta a ocupar posição central na estratégia patrimonial de longo prazo.