Polliana Aleixo fala sobre exposição dos corpos – Lully FM – Entertainment

Polliana Aleixo fala sobre exposição dos corpos

Polliana Aleixo já foi nossa companheira de rádio, na época, éramos Blá FM e ela apresentava um programa semanal em nossa emissora, a atriz desde cedo tem destaque na TV e no cinema. Polli, cresceu e apareceu para o Brasil todo ver. Hoje, com 27 anos, vive na série “Jogo da Corrupção”, uma mulher mais amadurecida, casada e com filhos. Além deste trabalho que tem encontrado grande repercussão, a atriz celebra o sucesso de “Esposa de Aluguel”, da Netflix, que se revela como um dos produtos de língua não-inglesa mais bem sucedidos da plataforma, no top 10 de programas mais assistidos da plataforma. A atriz também debate um tema importante da cena contemporânea: o feminicídio. Chamou atenção o fato de que na primeira semana do ano foram ao menos oito os casos de violência contra a mulher que alcançaram a mídia. Tratam-se de “índices que são alarmantes”, observa a artista. Polliana também destaca a exposição a qual são alvos os corpos femininos em filmes e séries: “A minutagem de corpos femininos nus em projetos audiovisuais é bem maior que os masculinos. Os números falam muito, pois, uma vez que essa diferença existe, é importante sim entender de onde isso vem, o porquê, e a quem isso atende”.

A atriz está em “Jogo da Corrupção”, afamada produção exibida pela Amazon Prime, que aborda as relações perigosas e corruptas que norteiam as decisões da Fifa (Federação Internacional de Futebol), além de uma baixa presença feminina no universo esportivo. Aleixo diz que esse era um tema muito debatido entre a equipe: “Conversávamos muito sobre isso, que é uma das questões importantes da série. É muito bom ter colegas com essa consciência, porque havia neste projeto um elenco majoritariamente masculino, o que nos fazia observar como o futebol dialoga, tanto ou mais pelo patriarcado, do que pelo machismo superficial que costuma ser falado. Trata-se de política, poder e de formas de retirar as mulheres das tomadas de decisão”. A atriz destaca a personagem vivida pela Maria Fernanda Cândido, que interpreta a mulher de João Havelange (Albano Jerônimo). Segundo Polliana, a personagem de Maria Fernanda consegue “à moda do devagar-e-sempre, conduzir os homens sem que eles mesmos percebam”.

Ainda segundo a atriz, a política norteia tanto as diretrizes da Fifa, que estas acabaram sendo determinantes para a escolha do Catar como país sede da última Copa, por mais que fossem famosos os problemas do país árabe para lidar com os Direitos Humanos e a homossexualidade, por exemplo. “A Copa do Catar trouxe muito essa questão de que o futebol é um ambiente político e não apenas um jogo de futebol (…). O país que a sediava tinha problemas sérios com os Direitos Humanos, homofobia, xenofobia…”

O futebol ainda é um ambiente muito heteronormativo. É importante colocar luz nestas questões e fazê-lo mais plural, de todo mundo – Polliana Aleixo

O machismo estrutural nos espaços corporativos – e por que não dizer, na sociedade em geral – acaba cobrando muito mais da mulher, que a todo tempo tem seu talento e habilidades questionadas exclusivamente por sua condição de existir. Perguntamos à Polliana se ela flagrou-se diante de algum tipo assédio – moral e/ou sexual – diante do fato de ser mulher e por estar trabalhando desde muito jovem. Segundo ela, há a necessidade da criação de um “ambiente (de trabalho) mais seguro para as mulheres, onde exista uma política que, de fato, funcione e ela tenha um espaço, uma rede de apoio para levar alguma questão pessoal. Esse movimento vem refletindo cada vez mais no nosso trabalho. Hoje existem reuniões e setores especializados nisso, pra que se possa sempre trazer qualquer questão e que não haja abuso de poder, de modo que todos se sintam mais à vontade para falar sobre tudo. Este debate que vem sendo construído torna mais amistoso não só o ambiente do audiovisual, mas todos os ambientes profissionais”.

Nos anos 90/2000 era comum haver nas novelas e nos programas de TV a exploração do corpo feminino como entretenimento, algo que hoje vem sendo problematizado. Mesmo “Pantanal”, a antecessora de “Travessia”, que na primeira versão, de 1990,  trazia as personagens femininas nuas na maior parte do tempo, o remake de 2022 não lançou mão do mesmo expediente. O mesmo se estende a filmes e séries que, na maior parte das vezes, são produzidas por homens. Ainda de acordo com a atriz, “entendo o audiovisual como um lugar para ressignificar isso. Assim como o beijo gay, por exemplo, que já foi uma pauta delicada e hoje em dia é tratada com muito mais naturalidade nas telas. Imagino que a gente possa fazer esse mesmo caminho (do respeito à mulher)”.

A educação antimachista passa, também, pelas mulheres. Por conta de uma sociedade que confere aos homens privilégios narrativos, esta prerrogativa machista acaba se estendendo às mulheres. Reiteram, elas, então, um comportamento machista? De acordo com Polliana, “tudo está em construção, até nossa própria consciência sobre o assunto, mas é importante entender que essa postura também é de uma vítima, pois vem de uma construção muito antiga, de competição feminina. É importante que se entenda que esse assunto é uma responsabilidade de todos, não só das mulheres”.

Desde muito cedo nas coxias e nos sets, na série da Amazon a atriz vive pela primeira vez experiências que lhes estão sendo apresentadas através das personagens. Como a da maternidade. “Estou perto de fazer 27 anos, não tenho planos de ter filhos neste momento da vida, mas estou numa fase ‘tia’. Vejo minhas amigas tornando-se mães, é uma transformação. Uso-as como referência por que o norte delas está num outro lugar, assim como o da minha personagem. É uma outra postura, uma outra cabeça. Na série, Victoria, papel que interpreto, ela passou por um processo de amadurecimento que pudemos construir pouco a pouco, desde a adolescência à fase adulta. A vida vai nos acompanhando os desafios, o nosso crescimento e coisas novas vão surgindo”.

A primeira semana de 2023 trouxe questões urgentes no que tange à violência contra a mulher. Nos seis primeiros dias do Ano Novo já havia sido noticiado pelo menos oito casos de repercussão sobre crimes de feminicídio. Voz ativa da causa feminista, perguntamos à Polliana sobre o que ela teria a dizer sobre a importância da discussão de temas como este. Segundo ela, “por mais que pareça óbvio, a gente precisa falar sobre. Essa urgência está escancarada e há um longo caminho a percorrer. É um assunto da sociedade que todo mundo precisa falar sobre, que precisa ser responsável, pois que rebate em todos. Os índices são alarmantes (…). Não estamos falando de uma coisa banal, mas de mulheres morrendo”.

A fala da atriz encontra eco nos dados. De acordo com Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 699 mulheres foram vítimas de feminicídio no início do ano passado, 2022, o que perfaz uma média de 4 por dia. Ela prossegue dizendo que “Temos que ser firmes e resistentes para acreditar. Passar a olhar para o lado e tomar atitudes, parar com esse negócio de ‘briga de marido e mulher não se mete a colher’. Pelo contrário. Havendo algo errado no vizinho é preciso sim, que chamemos a Polícia. Para que algo mude é preciso que tomemos atitudes para sair disso, de fato”.

Ainda nesta questão social, Polliana traz para o debate a importância da preservação ambiental. “Para mim essa relação com a natureza existe desde sempre e está num lugar de afeto. Nada faz mais sentido que devolver à natureza tudo aquilo que ela traz para a gente. Gasta-se milhões para se fazer aquilo que ela faz ‘de graça’. Quando tomamos a consciência de que tudo é feito através da natureza, torna-se necessário pensar em devolver tudo a ela através da preservação. Os números mostram isso. Na gestão federal passada não houve um cuidado no trato com o Meio Ambiente, muito pelo contrário. Eu mesma tive a oportunidade de ir à Amazônia fazer um trabalho de campo com o Greenpeace (Organização não governamental, voltada à questão ambiental), sobrevoei e vi os campos desmatados e percebi que não existe fiscalização. É curioso por que é algo que, embora proibido todos fazem e ninguém fiscaliza”. Ainda sobre esta expedição, Aleixo relata que esteve “às 9h numa região desmatada e ouvi os sons das árvores sendo derrubadas. Naquele local, disseram-me que respirar ali é equivalente a fumar 100 cigarros, tamanha a poluição. Em contrapartida, a Amazônia preservada tem um frescor, uma umidade… É muito louco perceber que está tudo no mesmo ambiente”.

O cheiro de fumaça era presente o dia inteiro. Parecia estávamos numa fogueira. Estando numa metrópole a gente não tem noção do que acontece lá [na Amazônia]. Desmatar exige uma organização e um dinheiro grandes. É algo criminoso – Polliana Aleixo

Dados do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) reiteram a fala da atriz. Segundo o órgão, de janeiro a setembro de 2022, a área de floresta amazônica derrubada atingiu 9.069 km², o que corresponde a quase oito vezes a cidade do Rio de Janeiro. A maior devastação em 15 anos. Muitas dessas áreas devastadas são revertidas para a criação de gado de corte. Polliana aponta ter “essa oportunidade de trabalhar junto com o Greenpeace e esta é uma coisa que me interessa, pois me permite olhar de perto [o desmatamento]. Falar de preservação ambiental é falar de qualidade de vida, do nosso ar, e precisamos entender que o que a gente come tem um impacto grande ao Meio Ambiente. Nossas decisões se impactam através da diminuição do consumo. Esse é um assunto urgente, que faz diferença para todo mundo e vai muito além da bandeira partidária”.

A força da mãe natureza a gente vê numa tsunami, numa enchente, mas também na reconstrução dela, na gestão correta e na cobrança de ações – Polliana Aleixo.

A contrário do que é recorrente quando se retrata em sua biografia, Polliana não é nascida em Curitiba, mas no Rio de Janeiro. “Sou carioca de Bonsucesso, ainda que tenha ido morar muito jovem no Paraná”. Como citado anteriormente, seu primeiro trabalho em televisão foi em “O Segredo da princesa Lili”. Passou a infância nos sets, quando gravou as novelas “Beleza Pura” e “Tempos Modernos”. A série “Tudo Novo de Novo” levou-a a seu primeiro papel de destaque, em “A Vida da Gente”. Ambas as últimas foram escritas por Lícia Manzo. Estar desde cedo nessa rotina trouxe algum prejuízo? “Não creio ter perdido nada. Acho que foram oportunidades diferentes. Pude conhecer alguns ídolos que sempre tive vontade de acessar. Tudo na vida tem ônus e bônus. Não creio ter perdido nada. Sou muito grata pelo que vivi. Sou feliz por haver me encontrado cedo na profissão, ter tomado essa consciência.

Vejo que há muita gente que não sabe o que quer fazer profissionalmente, assim como tem aqueles que trabalham apenas para custear aquilo que gostam de fazer. Eu tive um grande privilégio em ter podido desde jovem saber qual profissão seguir. Eu gosto de sonhar, mas a vida me surpreendeu da melhor maneira – Polliana Aleixo.

Ainda que se perceba privilegiada, Polliana constata que “nem tudo é tão pleno. A gente sempre vai fazer escolhas e elas vão sempre orientar-se por outros caminhos. Minha profissão é muito imprevisível, não tenho horários certos nem datas previsíveis. Não dá para esperar algo diferente disso, afinal. E, conforme a gente vai ficando mais maduro vai aprendendo a lidar com esse alinhamento de expectativa”.

Diante do estabelecimento da internet enquanto plataforma do streaming, tornando globalizado o trabalho de ator, Aleixo comemora que seus trabalhos estejam tendo boa repercussão junto ao público consumidor: “Pela primeira vez noto essa subida em gráficos, já que o filme hospedado na Netflix – “Esposa de Aluguel” – está bem ranqueado no iMDb (Internet Movie Database,  uma base de dados sobre cinema TV, música e games). Tenho recebido mensagens de espectadores de Portugal e França, por exemplo. Tenho pela primeira vez, a sensação de um grande alcance [do meu trabalho]. O público do streaming está descobrindo as produções brasileiras”, constata.

Ainda segundo a artista, a “Internet reverbera em vários lugares no entretenimento e no audiovisual. As pessoas estão ressignificando e redescobrindo o consumo através do streaming. Acho que é um mercado que tende a crescer muito”. No mesmo campo de ressignificação, estão as redes sociais. Polliana diz lidar bem com elas “Não sou a pessoa mais online do mundo, ainda que goste de trocar com o público impressões sobre o meu trabalho e saber qual opinião eles têm sobre. Creio ser uma experiência construtiva e é um canal legal. A internet mesmo está passando por processos e descobertas. Eu a vejo como estando num lugar de experimentação”.

A perspectiva low-profile que a artista imprime à vida também se estende a sua leitura sobre as redes sociais. “Para mim é tranquilo. Nunca sofri cancelamento, até por que eu não sou das pessoas que mais se expõe. Lido com as mídias sociais da mesma forma como lido com a minha vida pessoal. Sou uma pessoa mais reservada, então as redes são algo natural pra mim. É algo orgânico. Sinto que [como forma de comunicação] estou me descobrindo na Internet”.

Por mais que não seja uma novata na carreira, mesmo do alto dos seus quase trinta anos, há um olhar para o futuro e junto a ele uma prospecção de referência. “Tenho uma grande admiração pela Marjorie Estiano. Creio que ela é a melhor atriz da geração dela. Admiro as escolhas que ela fez. Tem algo nela que me encanta, tambem por conta de ela saber como ser profunda e discreta quanto à sua vida pessoal. Outra por quam tenho uma admiração profunda é a Maria Fernanda Cândido. É um grande prazer trabalhar com ela, que é uma pessoa simples, agradável, além de uma atriz talentosa. Seguir neste trilho é ter a percepção de que estou no caminho certo”, compara.

Fonte Heloisa Tolipan
Foto: Pupin+Deleu

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