“Tico e Teco”: A comédia ideal para adultos que nunca cresceram!

“Tico e Teco”: A comédia ideal para adultos que nunca cresceram!

6 de junho de 2022 0 Por admin

Tico e Teco: Defensores da Lei não demora talvez nem um minuto para admitir que ninguém pediu pelo filme que está prestes a assistir, e realmente não dá para negar que este seja um fato. Por mais que a dupla de esquilos tenha ganhado novas versões há pouco tempo — uma em 2017 e outra, no ano passado —, hoje é mais provável que “Chip ‘n’ Dale”, seus nomes originais, engatilhem, primeiro, memórias sobre um carpinteiro londrino do século XVIII do que uma mera lembrança das aventuras destes personagens da Disney. No entanto, não se engane: esse regresso não é mais uma tentativa despropositada de Hollywood reciclar seus sucessos do passado — não pura e simplesmente, pelo menos. A chave para essa distinção está justamente na sagacidade de se reconhecer “desnecessário”. Quando se permite rir de si mesmo, Tico e Teco faz da metalinguagem seu melhor artifício para ganhar até o mais cético dos espectadores e prova-se precioso.

Essa disposição à auto sátira está no cerne de toda a história, que revisita os antigos melhores amigos trinta anos depois de terem estourado na TV. Enquanto Tico abandonou de vez a carreira de ator e leva uma vida sossegada e comum, Teco tenta de todas as formas recuperar seu status de celebridade, fazendo até cirurgia para virar um personagem 3D e, assim, se adequar às modas da indústria. Porém, como estão brigados desde o cancelamento da série nos anos 1990 — diferenças criativas, sabe como é —, a possibilidade de um reboot (ou de uma reconciliação) é mínima.

Quer dizer, parecia ser. Os dois são obrigados a se reconectar e trabalhar juntos depois que seu antigo colega de elenco, Monterey Jack, é sequestrado por uma quadrilha perigosa, que produz bootlegs de clássicos da animação. Liderada por uma misteriosa figura chamada Sweet Pete, eles são tão implacáveis que não perdoaram nem o Linguado das suas dívidas e o obrigaram a estrelar uma versão fajuta e barata de A Pequena Sereia. Logo, quer gostem ou não da companhia um do outro, Tico e Teco precisam se aturar para salvar o amigo. Até porque, como diz Teco, “se é para ele fazer filmes ruins, que faça aqui comigo”.

Essa capacidade de debochar de si mesmo não é um recurso inédito, sobretudo desde o sucesso de Deadpool. Contudo, há de se admitir que é um pouco surpreendente que uma proposta como essa tenha partido da Disney, que reverencia seu legado com tanto respeito e devoção. Isso porque Tico e Teco olha para seu catálogo de personagens — e das suas concorrentes, diga-se de passagem — com um cinismo sutil e bem-vindo, mas um tanto incomum na história recente do estúdio. Uma façanha comparável, talvez, somente a Uma Cilada Para Roger Rabbit. Não à toa, o filme da dupla é, em muitos sentidos, uma sequência espiritual do sucesso de 1988.

O longa cria, então, um tom irresistível entre a bobeira e a acidez que conquista facilmente o espectador, seja rindo da cultura de celebridade, da evolução das técnicas de animação ou, às vezes, até do seu próprio elenco de dubladores. Mesmo assim, é inegável que ele ainda preserva uma faceta inofensiva. Porque, embora caçoe do esgarçamento de Hollywood e segure o espelho diante de uma das grandes responsáveis pelo movimento dos reboots, remakes e derivados, Tico e Teco não tem qualquer intenção de confrontá-lo com suas piadas — na realidade, muitas vezes ele cumpre as convenções das quais ele mesmo ri. No fundo, o “reboot” faz comédia pelo simples prazer de fazer comédia, e torna sua própria hipocrisia motivo de riso.

Sustentando-se na nostalgia descompromissada, na despretensão de rir de bobo e em uma avalanche de easter eggs e referências, Tico e Teco se prova o título ideal para os adultos que nunca cresceram. E que fique claro: digo isso no melhor dos sentidos. Porque as coisas não precisam ser sempre tão sérias. Elas podem ser “só” divertidas.

Fonte Omelete