A última banda do rock brasileiro

A última banda do rock brasileiro

31 de julho de 2022 0 Por admin

O que faz uma banda de rock? Basta apenas um vocalista com cara de doido, cabeludo, que grita no microfone e pula na plateia? Um guitarrista virtuoso, também cabeludo que quebra a guitarra no final do show? Uma banda onde todos os músicos são um bando de drogados e mal vestidos? O que seria o estilo rock de fato, aos olhos do público, tanto pra quem curte quanto pra quem não curte? Enquanto que o rock dos anos 90 acabou com a morte de Renato Russo e consequentemente o fim da Legião Urbana, a última banda de rock brasileiro do cenário mainstream dos últimos anos foi sem dúvidas o Charlie Brown Jr. Mas o que difere esses artistas que se destacam dos demais? Por que bandas como Legião Urbana e Charlie Brown Jr. tem essa maior conexão com o público?

Este que vos escreve nasceu e morou toda a infância, adolescência e início da juventude no interior da Bahia, onde os estilos musicais predominantes são todos menos o rock. Mas no período do meu ensino médio por volta do início dos anos 2000, uma banda que não se encaixava nos estilos em voga na região estava conquistando a cabeça da garotada, (a minha nem tanto pois ainda estava naquela fase do roqueiro que só escuta banda gringa e pesada), essa banda era Charlie Brown Jr. Lembro muito bem que nas rodas de amigos, onde juntávamos pra tocar violão e cantar músicas aleatoriamente, sempre tinha músicas dessa banda de Santos. Eles eram “música popular”, sendo tocada no alto sertão baiano. Qual artista do rock conseguiu algo assim? Caso alguém especule algo do tipo: “háááá, mas roqueiro existe em todos os lugares, não apenas do Sudeste”. Aí que está o ponto; essas pessoas a quem me refiro não eram roqueiros.

Coisas semelhantes já tinham ocorrido com artistas do rock que conseguiram furar a bolha, a tal ponto em que pessoas quem nem sabem o que é o rock passaram a curti-los; como por exemplo Raul Seixas (toca rauuullll), Legião Urbana (e as rodas de violão, “É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã”) e depois o Charlie Brown Jr (“O homem quando está em paz não quer guerra com ninguém”). Esses artistas se tornaram produtos de massa, sendo a banda do Chorão a última no estilo rock brasileiro. Depois deles não apareceram mais nenhuma banda assim. Mas a pergunta retorna: por que eles tinham essa maior conexão com o público?

Se fosse pra resumir tudo em algumas palavras as características que compõe um artista popular, independente do estilo, e em se tratando de Brasil, podemos dizer o seguinte: conexão, irreverência, simplicidade, dançante. Pegue todos os estilos que fazem sucesso no nosso país e você encontrará todos esses aspectos. Mas vamos abordar um pouco de cada um deles.

Ao falar nas letras das músicas, sobre os problemas do povo brasileiro, pobreza, depressão, juventude sem futuro, cultura urbana, além do figurino que nada mais era do que a própria roupa do dia a dia, isso criou uma conexão quase instantânea nos ouvintes, gerando aquele sentimento de pertencimento e empatia, fazendo com que as pessoas, mesmo os não roqueiros, sentissem uma proximidade com os músicos, como se eles fossem amigos ou até mesmo da família.

Também é presente nesses tipos de artistas uma forte irreverencia, algo muito típico no nosso país; uma herança da época da censura da ditadura militar onde não se podia falar abertamente sobre algo polêmico e então se utilizava de artimanhas para passar desapercebido dos censores, com isso, era comum Raul Seixas sendo chamado de “maluco”, pois essa era uma forma de se esconder da repressão. Mas a irreverência também é uma forma de alegrar e facilitar a compreensão e consumo por parte do público que está sempre cansado e sem tempo para o lazer e o entretenimento e, portanto, esse recurso serve também para não o cansar ainda mais com letras e sons pesados e críticos.

Como seria possível uma roda de amigos, num churrasco, tocando no violão músicas com acordes dissonantes durante toda a música, além de letras com palavras que ninguém entende, ou ritmos que ninguém saiba tocar de tão difícil? Não que seria impossível, mas logo perderia a graça, pois nesses momentos as pessoas não estão afim de pensar demais e querem se divertir. É o momento das pessoas ouvirem e cantarem músicas fáceis, alegres, e geralmente quem consegue esse fim são as músicas sertanejas, por causa da simplicidade. Mas o Charlie Brown Jr. também conseguiu essa proeza e adentrou nos lares dos brasileiros que não curtem rock como estilo principal.

Mas no país do Carnaval, do São João e de toda tradição ibero, africano, indígena, como querer fazer sucesso na música onde as pessoas não podem dançar e nem no mínimo “bater cabeça”? Não vai rolar! Mas o Charlie Brown Jr. conseguia, com suas músicas, fazer a galera dançar, pular, e tudo mais, principalmente por causa da sua influência em estilos musicais, como o reggae, funk, rap e hardcore. Era uma banda dançante, que graças a toda essa mistura não deixava o público parado e entediado.

É claro que esse texto é apenas um resumo e que necessitaria de algo mais profundo para entender melhor o que leva um artista a ganhar as graças da massa, pois há que se diferenciar sobre o significado isolado do “fazer sucesso” e do “atingir as massas”, pois é possível fazer sucesso apenas com um nicho, e ter reconhecimento; mas conseguir atrair todos os públicos ao mesmo tempo é algo difícil de se realizar, tanto que até podemos contar nos dedos quem realmente conseguiu isso, e posso afirmar com total tranquilidade e certeza que a banda santista Charlie Brown Jr. conseguiu.

Fonte Whiplash/Rodrigo Lamore